
1023 | Vazamentos, Agentes e a Nova Cerca do Conhecimento
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Neste episódio: vulnerabilidades publicadas por engano e caçadas em tempo real, agentes de IA que criam (e exigem) novas runtimes, o risco de uma nova "enclosure" do conhecimento científico, e as decisões de plataformas e governos que afetam o bolso e a privacidade de todos.
Linha do tempo
- 00:00:04 Abertura
- 00:00:36 Segurança: divulgações por engano e vigilância em tempo real
- 00:06:26 Escrever software: com IA e sem IA
- 00:10:56 IA, ciência e a nova 'enclosure' do conhecimento
- 00:15:14 Plataformas, dinheiro e poder sobre o utilizador
- 00:20:26 Encerramento
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Transcript
Sofia Almeida: Boa noite, e bem-vindos a mais uma edição do nosso podcast. Eu sou a Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa, boa noite a todos. Hoje temos um episódio com muitas histórias, mas há uma linha que as liga quase todas: quem fica com o controlo — sobre o código, sobre a informação, sobre os serviços que usamos todos os dias.
Sofia Almeida: Vamos começar precisamente por aí, com uma história de controlo perdido de uma forma muito literal: segredos de segurança que escaparam para o mundo antes de deviam.
Rafael Costa: Pois. Vamos a isso.
Sofia Almeida: Rafael, começa pelo ZDI, porque é talvez o caso mais grave.
Rafael Costa: Sim. A Zero Day Initiative publicou por engano várias vulnerabilidades do kernel Linux — algumas com gravidade até 9.0 na escala CVSS — diretamente na LKML, a lista de correio pública do kernel. Ou seja, não foi um leak num canal fechado, foi um fórum completamente aberto a qualquer pessoa no mundo.
Sofia Almeida: E isto importa muito, porque quando uma vulnerabilidade com esse nível de gravidade aparece num sítio público destes, deixa de existir a noção de "janela de correção coordenada". Qualquer atacante pode ir ler o relatório e começar a trabalhar nele imediatamente.
Rafael Costa: Exatamente. E a questão que fica no ar — e que eu acho que é a pergunta central do episódio — é: que consequências legais e processuais vêm daqui quando o leak é acidental? Porque quem divulga sem querer não tem a mesma responsabilidade moral que quem vende a um broker, mas o efeito prático para os utilizadores é parecido: estão expostos.
Sofia Almeida: E o mais interessante é que este não foi um caso isolado esta semana. Tivemos na verdade três episódios de exposição antecipada ou acidental, cada um com uma tonalidade diferente.
Rafael Costa: Pois. O segundo é o PHP2Shell. A equipa MadPot da Amazon AWS andava a monitorizar tentativas de exploração de uma vulnerabilidade PHP e já tinha detetado exploração ativa no dia 17 de outubro — quatro dias antes da divulgação oficial. Isto é o padrão clássico que já vemos há anos, mas cada vez mais agressivo: no mundo real, a "disclosure coordenada" começa na prática antes da data oficial, porque há gente a varrer a internet à procura de coisas novas.
Sofia Almeida: E isso força tudo o resto a acelerar. As equipas de segurança têm de fazer patching apressado, os mantenedores têm de adiantar datas, e todo o processo pensado para ser calmo e ordenado entra em modo de emergência.
Rafael Costa: E o terceiro caso é quase cómico, se não fosse importante. Um utilizador, o petecooper, publicou dois CVEs de execução remota de código em PHP — CVE-2026-109618 e CVE-2026-109619 — sem saber que estavam sob embargo. E depois veio publicamente pedir desculpa, deixando claro que não tinha consciência de que existia um embargo em curso.
Sofia Almeida: Gosto da forma como estes três casos se encaixam, porque mostram três formas diferentes de o mesmo problema acontecer: uma falha processual de uma organização séria como a ZDI, exploração em estado selvagem que antecipa tudo, e um indivíduo que simplesmente não sabia que havia regras e assumiu o erro na cara.
Rafael Costa: E é justo dizer que a reação à desculpa do petecooper foi em grande parte compreensiva — o tipo identificou-se, explicou-se, não tentou esconder nada. O debate que fica é mais sobre o sistema do que sobre a pessoa: embargos que dependem deEverybody saber quais são, sem canais claros, vão continuar a rebentar.
Sofia Almeida: Ok, do lado da exposição acidental passamos agora para o lado oposto: e se em vez de fugir informação por acidente, a acompanharmos em tempo real de forma deliberada?
Rafael Costa: Aí entra o pwn.watch, que é um projeto que lista 35 incidentes de segurança ativos neste momento — 15 deles classificados como críticos — em direto, com os CVEs e o estado dos patches de cada um.
Sofia Almeida: Isto é praticamente um painel de guerra para a indústria. E é uma resposta direta ao problema que acabámos de discutir: se os leaks acontecem e a exploração começa antes da data oficial, o que faz falta é visibilidade em tempo real, não relatórios trimestrais.
Rafael Costa: E há um contraste interessante com o caso anterior. O ZDI, a MadPot, o petecooper — são episódios pontuais, cada um com o seu drama. O pwn.watch é a industrialização da resposta: transforma aquilo que antes era conhecimento disperso em infraestrutura contínua.
Sofia Almeida: E aí vem a pergunta desconfortável: quem vigia quem vigia? Se um painel destes agrega tanta informação sensível, ele próprio se torna um alvo e uma fonte potencial. Mas de momento a utilidade parece superar o risco.
Rafael Costa: Sim, e deixa-me fazer a ponte para o caso que mostra a dimensão política disto tudo. Porque até agora falámos de código, de CVEs, de patches. Mas quando o alvo é uma pessoa, tudo muda de escala.
Sofia Almeida: Os telefones dos Kushner.
Rafael Costa: Exatamente. Telefones da família Kushner foram hackeados por hackers do GRU, a inteligência militar russa, com origem nos Países Baixos. E o que os telefones revelaram foram negociações secretas e transferências de dinheiro que somam mais de 700 milhões de dólares.
Sofia Almeida: Isto é uma escala completamente diferente. Não é uma vulnerabilidade num kernel — é um ativo geopolítico que ficou comprometido. E o ponto que eu acho que merece ser sublinhado é que, por muito que a indústria evolua em deteção, em patches, em painéis em tempo real, o elo humano continua a ser o mais frágil e o mais valioso.
Rafael Costa: E não há patch para isso. Podes ter o melhor smartphone do mundo, com o sistema operativo mais atualizado, e se as pessoas que usam os dispositivos estiverem a fazer negócios sensíveis, o ataque vem por onde menos esperas.
Sofia Almeida: E aí a pergunta que fica é: o que se pode fazer? Deteção melhor? Formação? Ou é simplesmente uma categoria de risco que os sistemas atuais não conseguem eliminar?
Rafael Costa: Acho que ninguém tem uma boa resposta. Vamos deixar isso no ar e mudar de assunto, mas com um fio que nos liga ao bloco seguinte: se os ataques e as defesas dependem cada vez mais de software — e de quem o escreve —, quem é que hoje escreve software, e como?
Sofia Almeida: Perfeito. E há aqui uma história que é quase um manifesto, na minha opinião.
Rafael Costa: Diz.
Sofia Almeida: Um utilizador chamado maxilevi lançou um jogo chamado Hedra. E o que é notável não é só o jogo em si — é a forma como foi feito. São 100 mil linhas de código, um jogo 3D de mundo aberto, que ele escreveu do zero quando estava no secundário, sem qualquer ajuda de inteligência artificial.
Rafael Costa: Isso, hoje em dia, é quase uma declaração política. Numa altura em que tudo é "copilot isto", "agent que", alguém constrói 100 mil linhas à mão, na escola, e lança o resultado. É um contraponto humano muito forte.
Sofia Almeida: E funciona como contraponto precisamente porque a mesma semana nos trouxe uma história que vai na direção oposta. A Switch 2, da Nintendo, recebeu o seu primeiro jailbreak totalmente por software.
Rafael Costa: E como é que isso aconteceu? Conta.
Sofia Almeida: Chama-se ns2jb, e funciona através de um integer overflow no SmileBASIC — uma linguagem de programação basic que corre na consola. E o detalhe que torna a história interessante é que quem a descobriu usou o Codex, o agente de programação da OpenAI, como ferramenta, e o trabalho todo levou cerca de duas semanas.
Rafael Costa: Portanto, num extremo tens alguém que escreve 100 mil linhas sem IA; no outro, alguém que consegue um feito técnico impressionante — o primeiro jailbreak puramente software de uma consola recente — em duas semanas, com a ajuda de um agente. É o mesmo mundo, duas filosofias completamente opostas sobre o que significa "ser programador".
Sofia Almeida: E o que é que a discussão em torno disso revela? Porque eu não acho que seja uma discussão de "IA boa, IA má".
Rafael Costa: Não, é mais subtil. Há quem diga que o jailbreak prova que a IA já permite fazer coisas que antes exigiam meses ou anos de expertise especializada. Há quem diga que o mérito continua a ser humano — a ideia do integer overflow no SmileBASIC é engenharia, não automação. E há quem questione se "duas semanas com Codex" é uma métrica honesta ou se esconde muito trabalho de entendimento que já existia antes de a IA entrar.
Sofia Almeida: E isso leva-nos a outra peça do mesmo puzzle, que é a forma como as próprias empresas de IA estão a organizar as suas ferramentas. A OpenAI lançou uma CLI oficial, escrita em Go, para a API deles — chama-se openai-cli, é open source com licença Apache 2.0.
Rafael Costa: E a reação na discussão pública foi... digamos, pouco entusiasta. A leitura generalizada foi que, ao contrário do Codex, que é um agente que trabalha de forma mais autónoma, esta CLI é essencialmente um wrapper da API — um embrulho bonito em volta dos mesmos endpoints que qualquer pessoa podia já chamar.
Sofia Almeida: E há aí um contraste interessante entre as duas histórias: o Codex a ajudar a fazer um jailbreak de duas semanas mostra o agente a ter valor real; a openai-cli a ser vista como "só um wrapper" mostra que nem tudo o que as empresas lançam tem a mesma profundidade. É a padronização das ferramentas, com a pergunta de quanto é autonomia real e quanto é marketing.
Rafael Costa: Sim, e há uma terceira peça que fecha bem este bloco. A NVIDIA lançou o OpenShell, que é apresentado como uma runtime segura para agentes de IA autónomos. E o projeto já tem 17,3 mil estrelas no GitHub, portanto há apetite claro por isto.
Sofia Almeida: Mas?
Rafael Costa: Mas há uma discussão séria em torno do projeto, que é sobre telemetria que não se consegue desativar. Ou seja, a infraestrutura pensada para dar liberdade aos agentes de IA vem, segundo quem analisa o código, com espião incluído.
Sofia Almeida: E isto é uma pergunta de confiança muito concreta: se vamos deixar agentes autónomos a correr código, em runtime seguras, e essas runtimes têm telemetria que não podemos desligar, quem fica a saber o que os nossos agentes fazem?
Rafael Costa: E faz a ponte perfeita para o próximo tema, porque a pergunta que fica é: se a IA escreve código, e vigia código, e corre em infraestrutura que vigia os seus utilizadores — quem vigia a IA? E, mais profundamente, quem fica com o conhecimento que ela produz?
Sofia Almeida: E é exatamente aí que eu queria chegar, porque há um argumento que penso que é central neste episódio e que merece ser desenvolvido com calma.
Rafael Costa: Diz.
Sofia Almeida: A ideia é que a inteligência artificial está a permitir uma "enclosure" do commons da informação científica — o mesmo fenómeno que aconteceu historicamente em Inglaterra com as terras comuns. As cercas: terras que eram de todos passaram a ser fechadas, privatizadas, com acesso controlado por quem tinha o poder.
Rafael Costa: E a analogia aplicada ao conhecimento científico é bastante forte. O que está em causa é que o saber que era comum — papers, dados, bases de conhecimento — está a ser capturado e transformado em acesso pago, mediado por modelos que só alguns podem construir e operar.
Sofia Almeida: E há um exemplo físico que nos ajuda a tornar isto concreto. A Google cortou 300 hectares de floresta na Finlândia para construir um centro de dados de IA avaliado em 13 mil milhões de euros. E a decisão foi tomada antes de o estudo de impacto ambiental estar concluído.
Rafael Costa: Portanto não é só uma metáfora abstrata: há florestas reais a ser cortadas, para infraestrutura que serve modelos que poucos controlam, e os processos ambientais — as salvaguardas que a sociedade criou precisamente para travar decisões precipitadas — ficaram para trás.
Sofia Almeida: E é isto que me faz pensar que a analogia com as cercas históricas não é apenas retórica. No século XVIII, os comuns foram cercados porque quem tinha o poder legal e físico conseguiu fazê-lo. Hoje, quem tem o capital e a infraestrutura consegue capturar o conhecimento de forma semelhante.
Rafael Costa: E a implicação é clara: quem controla os modelos e a infraestrutura controla o acesso ao saber. Não é um cenário distópico futuro — é uma tendência atual.
Sofia Almeida: E deixa-me adicionar um exemplo mais concreto do lado do conhecimento, porque às vezes a "enclosure" parece abstrata. Existe um projeto chamado "The Last Museum", que implementa busca semântica sobre 6,3 milhões de obras de arte de grandes museus.
Rafael Costa: E aí há dois lados. Por um lado, é uma demonstração incrível do que a busca semântica permite: em vez de procurares por título ou por artista, procuras por significado, por tema, por sensação. É uma forma de abrir o acervo dos museus a perguntas que antes eram impossíveis.
Sofia Almeida: Por outro lado, a crítica apontou dois problemas: os nomes — ou seja, como as coisas são etiquetadas, o que revela escolhas de quem constrói o sistema — e a interface de utilizador, que não esteve à altura.
Rafael Costa: E ligando isto à "enclosure": mesmo projetos bem-intencionados que abrem conhecimento fazem escolhas sobre como o conhecimento é apresentado, e essas escolhas não são neutras. Quem constrói a ferramenta está a cercar, mesmo que sem o dizer, uma parte da experiência.
Sofia Almeida: E para fechar este tema, há ainda um exemplo técnico interessante que mostra como o conhecimento especializado se torna cada vez mais restrito a quem o domina. Existe uma biblioteca chamada earstrip, com licença ISC, escrita em C++ com suporte WASM, que triangula 3,7 milhões de polígonos de mapas em 489 milissegundos.
Rafael Costa: E é mais rápida que o earcut, que era a referência nesta área. Portanto, mais uma vez: conhecimento computacional avançado, dominado por poucos, a produzir resultados que são muito difíceis de replicar sem essa expertise.
Sofia Almeida: E aí a pergunta que fica em aberto, e que eu acho que é a mais importante deste bloco: que salvaguardas legais conseguirão travar estas cercas? Porque até agora, o que vemos é que os processos ambientais, os processos regulatórios, os processos de transparência, estão a ser ultrapassados pela velocidade da decisão.
Rafael Costa: Sim, e não há resposta clara. Vamos deixar isso aí e fazer a ponte para o próximo tema, que é basicamente: o mesmo poder de plataforma que se aplica ao conhecimento aplica-se também aos serviços que usamos no dia a dia, sem pensarmos duas vezes.
Sofia Almeida: E para isso tenho um exemplo que é quase perfeito pela sua simplicidade. A Microsoft passou a cobrar entre 24 e 40 cêntimos por hora para fazer streaming na cloud de jogos Xbox que o utilizador já comprou.
Rafael Costa: Portanto, compras um jogo — é teu, supostamente. E depois, se o queres jogar via cloud, em vez de instalado localmente, pagas um aluguer por hora. É dupla monetização do mesmo bem, com a mesma pessoa.
Sofia Almeida: E a crítica não é sequer sobre o valor — 24 a 40 cêntimos pode parecer pouco. A crítica é sobre o princípio: o mesmo objeto digital, o mesmo jogo, é vendido duas vezes ao mesmo consumidor, consoante a forma como o consome.
Rafael Costa: E o que isto revela é uma lógica de plataforma: quem controla o canal de acesso tem o poder de criar camadas de pagamento que não existiam quando a compra foi feita. Não há contrato, não há negociação, é uma decisão unilateral.
Sofia Almeida: E isso conecta-se diretamente com outra história, que é o fim de um browser. O Arc Browser vai ser desligado no dia 22 de dezembro de 2026. E os utilizadores são convidados a migrar para o sucessor, que se chama Dia.
Rafael Costa: E aqui é o mesmo padrão, mas com uma ferramenta de trabalho. Pessoas que construíram fluxos, atalhos, hábitos à volta de um browser — e de repente, uma decisão da empresa diz: isto acaba, usa o outro.
Sofia Almeida: E há uma diferença importante em relação ao caso da Microsoft: no caso do Arc, o utilizador não pagou pelo browser. Era gratuito. Mas isso não muda o problema essencial — a decisão sobre uma ferramenta que faz parte da vida diária de alguém é tomada sem qualquer negociação com quem a usa.
Rafael Costa: E o que se passa quando uma ferramenta destas desaparece? As pessoas perdem tempo, perdem hábitos, perdem configurações, perdem a sensação de terem feito um investimento — mesmo que emocional — num produto. E a empresa passa a página.
Sofia Almeida: Mas há também alternativas a este modelo, e é bom falarmos delas para não ser só um bloco de pessimismo. A Taler Operations AG, sediada em Bochum, na Alemanha, pediu uma licença de E-Geld ao BaFin, o regulador financeiro alemão, para operar o GNU Taler como sistema de pagamento na Alemanha e na zona euro.
Rafael Costa: E o GNU Taler é interessante precisamente porque é um sistema de pagamento digital desenhado para ser privado por design. Não é criptomoeda especulativa, é um protocolo pensado para pagamentos normais, mas com privacidade como princípio de arquitetura.
Sofia Almeida: E ao pedir uma licença formal ao regulador, a Taler Operations está a tentar fazer algo que é raro: entrar no sistema financeiro oficial sem abrir mão dos princípios de privacidade. É uma alternativa real às big techs no espaço dos pagamentos.
Rafael Costa: E isso coloca uma pergunta interessante: será que o regulador alemão está preparado para avaliar algo assim? Porque os processos de licenciamento foram desenhados para bancos e para fintechs tradicionais, não para protocolos de privacidade por design.
Sofia Almeida: E essa questão de preparação dos reguladores aparece também noutro caso, no Canadá, onde estão a discutir o Bill S-211, que pretende limitar a publicidade de jogo a dinheiro real.
Rafael Costa: E para perceber a escala do problema: uma análise identificou 3000 mensagens de jogo em apenas 7 jogos da NHL. Sete jogos, 3000 mensagens. É uma saturação completa.
Sofia Almeida: Portanto, quando falamos de reguladores a tentar acompanhar, o Bill S-211 é um exemplo de tentativa — mas a questão é se chega, se é rápido suficiente, se consegue acompanhar a evolução das formas de publicidade.
Rafael Costa: E o contraste com o GNU Taler é interessante: num caso tens um regulador a tentar limitar excessos; no outro, tens um projeto a pedir entrada no sistema regulado para poder operar. Dois lados da mesma moeda — pun intended.
Sofia Almeida: E há um último caso neste bloco que eu acho que é o mais perturbador, porque sai do campo abstrato da regulação e entra no campo humano.
Rafael Costa: O caso da Amanda Smith.
Sofia Almeida: Sim. Amanda Smith passou três noites detida e enfrenta uma pena potencial de 6 anos, por causa de uma conta fraudulenta na Cash App que foi aberta no seu nome e com o seu número de Segurança Social.
Rafael Costa: E o que torna isto tão perturbador é que ela não fez nada. Alguém usou a identidade dela, abriu uma conta, e o sistema — o sistema de identidade americano, que se baseia no SSN como se fosse uma senha secreta — tratou-a como suspeita.
Sofia Almeida: E não há uma empresa específica a apontar aqui; há um sistema. Um sistema onde o SSN, que nunca foi desenhado para ser um identificador de autenticação, é tratado como prova de identidade. E quando isso falha, é a pessoa inocente que paga.
Rafael Costa: Três noites detida, seis anos de risco. É o custo humano de uma arquitetura de identidade frágil, e é o exemplo mais duro do que acontece quando os sistemas não são desenhados pensando no utilizador como pessoa.
Sofia Almeida: E aí a pergunta que fica em aberto para fechar o episódio, e que resume quase tudo o que falámos hoje: quando nem as IAs convergem, nem as instituições decidem bem, quem é que decide? No fim, é o utilizador — mas será que o utilizador tem realmente poder para decidir alguma coisa?
Rafael Costa: E essa é a pergunta que deixamos para ti, ouvinte. Fica connosco no próximo episódio. Boa noite.
Sofia Almeida: Boa noite, e obrigada por nos ouvires.