0930 | Agentes, baterias e bisbilhoteiros: a semana em tecnologia

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Um tour rápido pelas notícias de tecnologia da semana: o DevDay da OpenAI e a disputa de modelos, quando IA escreve o design, privacidade ameaçada por IA e câmeras faciais, a revolução das baterias e da rede elétrica, e o resto — do espaço no navegador ao site da Casa Branca.

Linha do tempo

  • 00:00:04 Abertura
  • 00:00:36 DevDay da OpenAI: agentes, modelos e preços
  • 00:04:23 Vibe coding é design?
  • 00:06:58 IA, privacidade e vigilância
  • 00:11:50 Energia: baterias, discos e redes que funcionam
  • 00:15:18 Política e dependências digitais
  • 00:18:12 O resto: ciência, sociedade e bugs
  • 00:26:07 Encerramento

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Transcript

Sofia Almeida: Olá, bem-vindo a mais um episódio do nosso podcast diário de tecnologia. Eu sou a Sofia Almeida.

Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. O dia de hoje teve de tudo, mas se a gente tivesse que escolher um fio condutor, seria este: como decidimos em quem confiar — em modelos, em governos, em fornecedores, até nas nossas próprias ferramentas de trabalho.

Sofia Almeida: Exato. Começando pela conferência de desenvolvedores da OpenAI, que movimentou bastante a discussão. Vamos direto ao assunto.

Rafael Costa: Pois é. A OpenAI DevDay de 2026 trouxe mais de vinte anúncios de uma vez, e a discussão que se formou foi bem dividida entre três frentes: os agentes Dots, o novo modelo GPT-6.1 Sol e a estrutura de preços como um todo.

Sofia Almeida: Vamos por partes. Os Dots são agentes sempre ligados, alimentados pelo GPT-6 Astra, cada um com o próprio computador na nuvem e mais de quatro mil integrações de aplicativos.

Rafael Costa: E aí a conversa ficou interessante, porque os comentaristas não chegaram a um acordo sobre o que isso significa. Uma parte acha que é o momento em que os agentes deixam de ser demos e viram produto de verdade — ter um computador dedicado na nuvem resolve o problema do agente morrer quando a sessão acaba. Outros levantaram exatamente o contraponto: um agente sempre ligado, com acesso a quatro mil aplicativos, é uma superfície de erro gigantesca.

Rafael Costa: A pergunta que ficou no ar e não foi respondida: quem é responsável quando um Dot faz algo errado enquanto você está dormindo?

Sofia Almeida: E tem o detalhe da disponibilidade — os Dots ficam restritos aos planos Pro e Business Premium, ou seja, os mais caros. Isso conecta com a terceira frente da discussão, os preços.

Rafael Costa: Sim, e é aí que acho que a discussão mais substancial aconteceu. A OpenAI anunciou o Pro 500, a cincocentos dólares por mês, com acesso ao Ultrafast, e trouxe de volta o Pro 200 para usuários novos — mas com limites de uso menores. Os comentaristas leram isso como estratificação clara: a IA virando produto de assinatura em camadas, tipo plano de celular.

Sofia Almeida: Houve discordância sobre se isso é bom ou ruim?

Rafael Costa: Houve. Um grupo disse que é inevitável e até saudável — computação custa caro, e quem usa mais paga mais, simples. Outro grupo discordou e argumentou que criar um degrau de quinhentos dólares por mês fragmenta o ecossistema: ferramentas construídas em cima de capacidades só disponíveis para poucos vão gerar produtos que a maioria não consegue usar. E ninguém conseguiu responder à pergunta óbvia: onde fica o teto? Se hoje é quinhentos, o que impede de amanhã ser mil?

Sofia Almeida: E no meio disso tudo, o GPT-6.1 Sol, que talvez seja o anúncio mais tático dos todos.

Rafael Costa: Exato. O Sol oferece inteligência quase no nível do Astra por um quinto do preço — dois dólares de entrada e dez de saída por milhão de tokens. Nos benchmarks citados, ele empata com o Astra no DeepSWE e supera o Opus 5.5 da Anthropic no GDP.pdf. A leitura dos comentaristas foi de guerra de preço declarada: a OpenAI basicamente dizendo "você não precisa pagar o valor premium para ter quase o valor premium".

Sofia Almeida: Um comentarista resumiu bem a dinâmica: quando o modelo de topo custa cinco vezes mais e performa quase igual nos testes relevantes, a competição se desloca do capability para o preço e a confiabilidade. E tem também a Decisions API, construída sobre o modelo Luna, que foi mencionada entre os anúncios mas rendeu menos discussão — o que, para alguns, é sintomático: vinte anúncios de uma vez pode significar que nenhum recebe o cuidado que merecia.

Rafael Costa: Ficou uma pergunta em aberto no final da discussão que eu gostei: se os modelos são a mercadoria e o preço despenca, onde fica a margem da OpenAI? A resposta implícita nos anúncios parece ser: nos agentes e nas assinaturas caras. O que nos leva perfeitamente para o próximo assunto — porque a qualidade desses modelos em uso real é justamente o que um projeto da comunidade decidiu medir.

Sofia Almeida: Esse é o caso do fundador da Railcode, que fez o site da própria empresa "vibe-codando" — construindo iterando com agentes de IA — e as pessoas começaram a perguntar qual designer ele tinha contratado.

Rafael Costa: E é um anedota pequena com uma discussão grande em volta. A tese que dominou no Hacker News: iterar com agentes é design. A ideia é que quando você olha um resultado, pede um ajuste, rejeita, pede outro, você está fazendo exatamente o que um designer faz — dirigindo uma intenção estética através de muitas iterações, mesmo sem tocar no Figma.

Sofia Almeida: Os comentaristas concordaram nisso?

Rafael Costa: Em parte. Quem concordou argumentou que a distinção entre "saber fazer" e "saber julgar" sempre existiu — diretores de arte nunca desenharam tudo que assinam. Quem discordou trouxe o contraponto de que design também é entender restrições: tipografia, hierarquia, acessibilidade, sistemas de grade. Se você só aceita ou rejeita outputs, você é um crítico, não um designer — e um crítico com sorte. A linha que separa os dois campos nunca ficou definida na discussão.

Sofia Almeida: E aí entra o projeto livenerf, que conecta com isso de um jeito prático.

Rafael Costa: Sim. O livenerf é um benchmark diário que acompanha se o Claude Opus 5.5 piorou depois do lançamento. A metodologia: os primeiros dez dias servem de linha de base, e a primeira chamada de comparação está prevista para por volta do dia 24 de outubro de 2026. A motivação é a suspeita recorrente na comunidade de que os modelos degradam com o tempo após o lançamento — seja por mudanças de roteamento, seja por economia de computação.

Sofia Almeida: E o que isso tem a ver com o site da Railcode?

Rafael Costa: Tudo, na leitura dos comentaristas. Se o modelo piora silenciosamente, o resultado prático do seu vibe coding piora junto — e você não sabe. O fundador da Railcode teve sorte; o próximo pode não ter. Por isso o livenerf importa: é uma tentativa de trazer transparência para uma variável que ninguém controla. Ficou em aberto se dez dias de baseline são suficientes para detectar degradação sutil, porque a variância natural de respostas pode mascarar mudanças pequenas.

Sofia Almeida: E tem uma ressalva que apareceu na discussão: confiar cegamente na iteração com agentes tem limites — e esses limites às vezes são de privacidade, não só de qualidade. Isso é uma ponte perfeita para o nosso próximo bloco.

Rafael Costa: Exatamente. Vamos falar de IA, privacidade e vigilância, e começar pelo achado mais desconfortável: um estudo descobriu que provedores de chatbots de IA estão vazando dados para rastreadores — títulos de conversas, os próprios prompts, screenshots e permalinks desprotegidos, tudo atrelado a IDs de usuário persistentes.

Sofia Almeida: Esse foi o achado que mais gerou reação. Os comentaristas separaram os problemas em camadas. O vazamento de títulos e prompts para rastreadores é ruim, mas o permalink desprotegido foi apontado como o pior: uma URL que abre a conversa inteira, circulando para terceiros, sem autenticação. Se um permalink cair nas mãos erradas, é tudo ali.

Rafael Costa: E o ID persistente agrava, porque permite que o rastreador construa um histórico longitudinal de tudo que você perguntou ao chatbot ao longo dos meses.

Sofia Almeida: Houve quem compartilhasse experiência própria?

Rafael Costa: Houve. Vários comentaristas relataram que já suspeitavam e por isso nunca colam trabalho confidencial ou dados pessoais nos chats públicos — o que, outros apontaram, é privilégio de quem entende os riscos. O usuário médio trata o chatbot como confidente, e o estudo sugere que essa confiança é mal colocada. A pergunta não resolvida: por que os provedores fazem isso?

Rafael Costa: A hipótese mais citada é analytics e debug, mas ninguém do lado dos provedores apareceu para explicar, e a diferença entre "precisamos medir engajamento" e "enviamos seus prompts com identificador persistente para terceiros" nunca foi enfrentada de frente.

Rafael Costa: E olha, se a tecnologia pode trair a confiança num contexto pessoal, ela também pode ser ineficaz num contexto público — e é aí que entra o caso das estações de trem de Londres.

Sofia Almeida: O experimento durou seis meses e escaneou mais de quinhentas mil faces. Custo: trezentas e vinte mil libras. Tempo policial: cem horas. Resultado: um falso positivo e zero prisões.

Rafael Costa: Esse caso praticamente não dividiu a discussão — quase todos leram como evidência de que reconhecimento facial em massa é dinheiro queimado. O que os comentaristas debateram foi o porquê. Alguns apontaram a taxa de erro intrínseca da tecnologia em ambientes com multidão e iluminação variável. Outros foram mais fundo: mesmo se a precisão fosse perfeita, o custo-benefício não fecha, porque os alvos que justificariam a vigilância são raros demais no fluxo de meio milhão de pessoas.

Rafael Costa: E houve quem levantasse a questão que ficou em aberto: se um teste de seis meses com esse resultado não mata o programa, o que mata? Porque a preocupação implícita é que programas de vigilância nunca morrem por ineficácia — morrem por escândalo.

Sofia Almeida: E a mesma lógica de "IA aplicada sem freio" aparece no caso do DraftKings, que talvez seja o mais cínico dos três.

Rafael Costa: Sem dúvida o mais desconfortável. O DraftKings usa IA sobre os registros de apostas para identificar quem provavelmente vai perder — os apostadores perdedores — e mira neles com promoções. Ou seja, o modelo preditivo serve para achar as vítimas mais rentáveis. A EFF pediu o banimento de anúncios comportamentais nesse contexto.

Sofia Almeida: E a discussão aqui girou em torno de assimetria de informação, certo?

Rafael Costa: Totalmente. Os comentaristas apontaram que a casa sempre sabe mais — mas agora com machine learning, ela sabe quem você é antes de você saber de si mesmo. Alguns defenderam que apostar é escolha adulta e o problema é regulação de jogo, não de tecnologia. Outros refutaram: quando a plataforma usa IA para prever quem vai perder e intensifica o marketing contra exatamente essas pessoas, deixa de ser jogo e passa a ser exploração direcionada.

Rafael Costa: Ficou em aberto se um banimento de anúncios comportamentais resolveria — porque a plataforma pode simplesmente mirar via outros canais.

Sofia Almeida: E para fechar esse bloco, um caso curioso que mistura tudo: o estatístico Nicholas Polson, com duzentos e cinquenta e oito papers acadêmicos publicados em 2026.

Rafael Costa: Duzentos e cinquenta e oito num único ano. O Hacker News suspeita fortemente de uso massivo de IA na produção, e a piada que circulou — e que todo comentarista repete — é que o nome dele invertido soletra "noslop". Além da piada, a discussão séria foi sobre o que significa um número desses: alguns disseram que é síntese legítima em escala; outros, que a revisão por pares quebrou se alguém consegue publicar nesse ritmo sem que os venues reajam.

Rafael Costa: A pergunta sem resposta: quantos desses papers alguém de fato leu?

Sofia Almeida: Vamos mudar de assunto, mas mantendo o tema da confiança — agora em infraestrutura. Energia, hardware, redes.

Rafael Costa: Começando por um caso que impressionou todo mundo: a Green Mountain Power, de Vermont, montou uma usina virtual com mais de cinco mil e quinhentas baterias residenciais. O modelo: o cliente recebe cinquenta e cinco dólares por mês durante dez anos, e a companhia pode usar as baterias quando precisa.

Sofia Almeida: E hoje isso é a maior fonte de energia do estado.

Rafael Costa: Exato — maior fonte de energia, de uma coleção de baterias em garagens e porões. Os comentaristas quebraram a cabeça em torno de por que isso não é replicado em massa. As respostas variaram: o tamanho de Vermont ajuda, o perfil de demanda do estado ajuda, e o fato de a GMP ser uma utility relativamente pequena e ágil também. O ceticismo veio de quem já viu programas parecidos morrerem quando escala — gestão de milhares de baterias heterogêneas não é trivial.

Rafael Costa: E ficou a pergunta: o que acontece em dez anos, quando as baterias envelhecerem e o contrato acabar?

Sofia Almeida: No mesmo tema de infraestrutura, a Backblaze soltou o relatório do segundo trimestre de 2026 — o clássico de confiabilidade de discos.

Rafael Costa: Duzentos e cinquenta... corrijo: trezentos e cinquenta e quatro mil, quatrocentos e quinze discos analisados, com taxa anual de falha geral de um vírgula setenta e três por cento. Números estáveis, dentro do padrão histórico dos relatórios deles. Mas o que realmente puxou a discussão foi o anúncio de um acordo multi-exabyte de armazenamento com a CoreWeave.

Sofia Almeida: Que é um sinal da demanda por armazenamento para IA, não?

Rafael Costa: Foi a leitura majoritária: treinamento e inferência geram montanhas de dados, e empresas de hiperscale comprando capacidade de terceiros especializados mostra que o gargalo se desloca. Alguns comentaristas specularam sobre o que isso significa para o mercado de storage — se os players de IA passam a absorver capacidade em contratos gigantescos, sobra menos e fica mais caro para o resto do mundo. Ficou em aberto, porque os termos do acordo não foram divulgados.

Sofia Almeida: E o terceiro pilar desse bloco é o mais inspirador: Délhi.

Rafael Costa: Délhi cortou perdas de eletricidade de cinquenta por cento para cinco por cento desde 2002. Cinquenta por cento — metade da energia gerada nunca era paga: aparelhos obsoletos, rede decrépita e, principalmente, furto de energia.

Sofia Almeida: O que a discussão extraiu disso?

Rafael Costa: A lição comum do bloco todo: infraestrutura bem gerida transforma sistemas falhos. Os comentaristas com experiência em países em desenvolvimento confirmaram que perdas de cinquenta por cento eram o padrão em muitas redes, e que a recuperação de Délhi não veio de tecnologia exótica — veio de consertar o básico: medidores, manutenção, e o impopular trabalho de combater o roubo. Alguns questionaram a comparabilidade — os números de antes podem ser imprecisos, medição ruim nas duas pontas.

Rafael Costa: Mas mesmo com ressalva, ninguém negou a magnitude da mudança. E é exatamente essa desconfiança entre estados que leva ao próximo assunto: quando a confiança quebra, você troca de fornecedor.

Rafael Costa: O caso mais dramático é o da Holanda. As sanções dos Estados Unidos contra o Tribunal Penal Internacional levaram o país a construir um ecossistema baseado em NixOS para substituir a Microsoft, com testes rodando e primeira versão prevista para o fim de 2027.

Sofia Almeida: O detalhe NixOS não é casual, né?

Rafael Costa: Não, e os comentaristas aprofundaram justamente aí. NixOS oferece builds reproduzíveis e declarativas — ou seja, o estado inteiro do sistema é definido em código e auditável. Para um governo que acabou de descobrir que seu fornecedor pode ser usado como arma de política externa, a auditorabilidade é o ponto central. Quem trabalha com Nix em produção validou a escolha, mas avisou: a curva de aprendizado para milhares de servidores públicos é brutal.

Rafael Costa: E a pergunta que ficou: dois anos é suficiente para substituir uma dependência do tamanho da Microsoft? Muitos apostaram que não, e que a primeira versão de 2027 vai ser muito parcial.

Sofia Almeida: No mesmo tema, o Google anunciou o fim do ChromeOS em 2034 — dois anos antes do previsto originalmente — empurrando os Chromebooks para o chamado Googlebook OS, com licenças pagas novas.

Rafael Costa: E aqui a leitura dos comentaristas foi quase unânime em desconfiança: "fim do suporte dois anos mais cedo" e "licenças pagas" na mesma frase cheira a monetização forçada da base instalada. Escolas e instituições que compraram frotas de Chromebooks com promessa de longevidade ficam no prejuízo. Alguns compararam com o caso holandês — na direção oposta: a Holanda migra para ganhar soberania, o Google migra usuários para ganhar receita.

Rafael Costa: Mesma mecânica de troca de plataforma, incentivos completamente opostos.

Sofia Almeida: E o terceiro caso do bloco é o mais estranho: a inspetoria do USPS processou um nacional paquistanês por causa do site LabelsBank.com — cerca de cinco milhões e cem mil etiquetas de frete falsificadas, vendidas a dois dólares cada, com prejuízo de mais de cento e vinte e seis milhões de dólares.

Rafael Costa: Esse caso rendeu uma discussão técnica inesperada. Os comentaristas explicaram a mecânica: etiquetas de frete falsas aproveitam brechas no processo de verificação, e o volume — cinco milhões — mostra que o fraudador não era artesanal, era industrial. A aritmética impressionou: etiqueta a dois dólares gerando cento e vinte e seis milhões em perdas. E a pergunta que ficou: por que as transportadoras não validam as etiquetas no ponto de origem?

Rafael Costa: As respostas sugeriram que a validação completa custa mais do que o prejuízo, o que é uma justificativa econômica desconfortável para um problema que vive de confiança no sistema.

Sofia Almeida: E agora vamos ao bloco que a gente chama carinhosamente de "o resto" — mas que hoje tem material de sobra. Começando por um projeto que encantou o Hacker News.

Rafael Costa: O space.bl2.net: um sistema solar em escala real no navegador, com quinhentas e vinte e seis mil asteroides vindos do banco de dados do JPL, elementos orbitais do CelesTrak, e o cálculo de propagação SGP4 rodando em web workers, com atualizações diárias.

Sofia Almeida: A discussão aqui foi meio técnica, meio poética.

Rafael Costa: Os dois. Do lado técnico, os comentaristas elogiaram a arquitetura: jogar o SGP4 em web workers é a escolha certa para não travar a thread principal com quinhentas mil trajetórias. Do lado poético, todo mundo relatou o mesmo efeito: fazer zoom out e ver que os asteroides formam um anel — o cinturão — e perceber a escala real.

Rafael Costa: Alguns questionaram se as posições são precisas o suficiente para usos sérios ou se é visualização; a resposta implícita é que com dados do JPL e SGP4 é razoavelmente sério, mas as limitações de propagação a longo prazo ficaram sem resposta definitiva.

Sofia Almeida: Mudando totalmente de registro: um dado social que pegou todo mundo de surpresa.

Rafael Costa: A parcela de americanos que recebe amigos ou família em casa pelo menos uma vez por mês caiu de quarenta e dois por cento em 1975 para doze por cento em 2026. Isso é um colapso de setenta por cento em cinquenta anos.

Sofia Almeida: E as causas discutidas foram bem variadas.

Rafael Costa: Muito variadas, e é importante dizer que não houve consenso. Alguns culparam o custo de vida — casas menores, e receber gente em casa exige espaço. Outros apontaram o deslocamento da socialização para ambientes digitais e bares pagos. Alguns mencionaram a cultura de hospitalidade americana versus outras culturas onde receber em casa é o padrão. E houve quem duvidasse da própria comparação: será que em 1975 a metodologia de pesquisa era a mesma?

Rafael Costa: Essa ressalva metodológica ficou em aberto, mas mesmo os céticos admitiram que, se o número estiver mesmo aproximadamente certo, é um dos maiores colapsos sociais mensuráveis da amostra.

Sofia Almeida: No campo da saúde, um estudo da Lancet Oncology chamou atenção: infecções causaram dois milhões e trezentos mil casos de câncer em 2024, cerca de doze por cento dos casos novos, liderados pelo H. pylori e pelo HPV.

Rafael Costa: E aqui os comentaristas com formação médica trouxeram o ponto otimista: esses são, em tese, cânceres preveníveis. A H. pylori se erradica com antibióticos, o HPV com vacina. Ou seja, doze por cento dos casos novos de câncer têm um alvo claro de prevenção. A discussão girou em torno do porquê da lacuna entre prevenção possível e prevenção real: cobertura de vacinação, acesso a diagnóstico e tratamento da bactéria, e em algumas regiões hesitação vacinal.

Rafael Costa: Ninguém contestou os números do estudo, mas ficaram dúvidas sobre como os quase dois milhões de casos foram atribuídos causalmente às infecções — atribuição causal em epidemiologia de câncer é notoriamente delicada.

Sofia Almeida: E agora as trapalhadas da semana, que a comunidade adorou.

Rafael Costa: A primeira: o novo site america.gov da Casa Branca, com uma página de vinte e cinco megabytes que reprova no teste de acessibilidade WAVE. Enquanto isso, o usa.gov — o site que já existia — segue de pé com oitocentos kilobytes.

Sofia Almeida: Vinte e cinco megabytes numa página de landing.

Rafael Costa: Os comentaristas de front-end fizeram a autópsia: esse peso não acontece por acaso, é bundle de framework inchado, fontes, vídeos, rastreadores. E o fracasso no WAVE significa problemas básicos de acessibilidade — contraste, rótulos, estrutura. O comparativo com o usa.gov foi o golpe: um site herdado, mais leve, funciona e é acessível. A pergunta retórica que dominou: por que gastar para reconstruir pior?

Rafael Costa: E a resposta suspeitada por todos — porque era um projeto novo com orçamento novo — nunca foi confirmada.

Sofia Almeida: E a segunda trapalhada vem da Apple: o macOS 27, apelidado de "Golden Gate", que era para ser uma versão de estabilização e correção de bugs... chegou cheio de bugs de interface.

Rafael Costa: A ironia não escapou a ninguém: um release posicionado explicitamente como conserto do que veio antes, lançado com ícones desalinhados, travamentos da barra de menu, busca quebrada e conteúdo residual do Tahoe — a versão anterior — sobrando por aí. Os comentaristas divergiram sobre a gravidade. Alguns disseram que bugs de UI são cosméticos e se resolvem em atualizações pontuais.

Rafael Costa: Outros refutaram: bugs de qualidade como esses num release rotulado de "correção" sinalizam um processo de QA deteriorado, e é a tendência que importa, não o bug individual. E ficou em aberto se a pressa em cadências anuais de lançamento é a causa raiz — hipótese popular, mas não comprovada.

Sofia Almeida: Antes de nos despedirmos, ainda temos alguns assuntos menores que merecem menção rápida, mas que renderam conversa boa.

Rafael Costa: O Tcl/Tk 9.1.0 saiu no dia vinte e nove de setembro de 2026. A versão de Tk finalmente traz acessibilidade para leitores de tela e texto bidirecional, e a de Tcl ganha unicode, melhorias de timer e um lfilter. Alguns veteranos comentaram que acessibilidade no Tk é uma dívida de décadas sendo paga, e que o texto bidirecional abre a biblioteca para mercados que ela nunca atendeu direito.

Sofia Almeida: No mundo dos jogos, o Godot teve uma demonstração interessante: a combinação de GDExtension, godot-cpp versão 10 e Conan permite usar qualquer biblioteca de C ou C++ dentro da engine. A demo simulou cem mil partículas com a flecs.

Rafael Costa: E a discussão aqui foi sobre o que isso significa para a posição do Godot: a engine deixa de ser limitada pelo que vem embutido e passa a poder puxar o ecossistema inteiro de C++. Quem tentou elogiou a ergonomia, mas com a ressalva de que gerenciar dependências nativas por engine ainda é trabalhoso em comparação com engines fechadas que embutem tudo.

Sofia Almeida: No lado dos livros, uma thread de recomendações de leitura no Ask HN dominada pela série Dungeon Crawler Carl — um litRPG que parece ter convertido meio Hacker News — com recomendações que vão de Seeing Like a State, passando por Normal Accidents, até Infinite Jest.

Rafael Costa: O engraçado é a distância entre as recomendações: ficção pulp de dungeon e tratados de teoria organizacional e estudos de acidentes sistêmicos na mesma lista. Alguns comentaristas notaram exatamente isso como sintoma de que a comunidade lê em dois modos: prazer puro e ferramenta mental.

Sofia Almeida: E por fim, um clássico revisitado: o livro do David MacKay, Sustainable Energy Without the Hot Air, de 2008, gratuito online. As críticas recentes apontam a falácia da energia primária — comparar eletricidade com combustão direta infla os números — e os preços de solar e eólica de 2008, obviamente defasados.

Rafael Costa: E a defesa do livro, que também apareceu, é que o valor dele nunca foi os preços, foi o método: aritmética honesta de balanço energético, que continua útil mesmo com inputs desatualizados. A discussão terminou empatada entre "método atemporal" e "números que enganam o leitor desatento".

Sofia Almeida: E com isso fechamos o dia. Do preço dos tokens até o colapso da hospitalidade, passando por baterias em Vermont e asteroides no navegador, o fio que amarra tudo continua o mesmo: confiança — em quem constrói, em quem vende, em quem vigia.

Rafael Costa: Obrigado por nos acompanhar, e até amanhã com mais uma rodada de discussões. Eu sou o Rafael Costa.

Sofia Almeida: E eu a Sofia Almeida. Boa noite a todos.