
0921 | Agentes, promessas e um pouco de barulho
Show notes
Neste episódio, exploramos como agentes de IA estão a assumir trabalho que exigia uma pessoa — e o que acontece quando o trabalho, e não apenas o texto, precisa de se mover entre ferramentas. Depois falamos de apps construídas com honestidade radical: preços por escrito, o que a app admite não saber, e o regresso de funcionalidades que grandes plataformas removeram. Também cobrimos ferramentas para quem vende a developers, e fechamos com projetos criativos feitos por prazer — de uma autoestrada
Linha do tempo
- 00:00:04 Abertura
- 00:01:13 Agentes de IA que executam trabalho — e mantêm o contexto
- 00:08:30 Promessas por escrito: preços, dados e o que a app admite não saber
- 00:15:22 O desktop de volta ao utilizador: Launchpad, tecla de play e pranchas
- 00:21:47 Vender a developers: encontrar quem já tem a dor
- 00:29:53 A autoestrada que compõe música (e outros pequenos prazeres)
- 00:36:21 Encerramento
Links relacionados
- Mycel
- Epismo OS
- Harbor
- YABAI
- Launchie 1.6.1
- SmartPause
- Scrapboard Cloud 4
- Morsa Signals
- Embedful
- Answers by Context.dev
- ManyPI
- The 101 Plays Itself
- Termphin
Este episódio é produzido pela Bri. O Bri usa tecnologia avançada de IA para transformar os feeds importantes para você em podcasts feitos para ouvir. Fale conosco em hi@bri.so.
Transcript
Sofia Almeida: Boas-vindas à mais mais briefing de lançamentos — eu sou a Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. E hoje vamos falar de um fio condutor que atravessa quase tudo o que foi lançado nas últimas vinte e quatro horas: está a acontecer uma mudança de postura. Estamos a sair da fase de "olha, aqui vai mais uma ferramenta de IA" para uma fase onde os makers parecem ter percebido que o verdadeiro problema não é fazer a máquina trabalhar — é o que acontece à volta dela. Quem vigia a qualidade, quem mantém o contexto, quem garante que o utilizador não foi enganado.
Sofia Almeida: Exatamente. E por isso o episódio de hoje vai ser organizado em volta dessa tensão. Vamos começar pelo mais pesado: agentes de IA que executam trabalho a sério, para clientes, e o problema do contexto que não viaja. Depois passamos pelas promessas por escrito — preços, dados, honestidade sobre o que uma app não sabe. Depois falamos do desktop a ser devolvido às mãos do utilizador, do problema de vender a developers, e fechamos com uma autoestrada de Los Angeles que toca música. Sim, ouviram bem.
Rafael Costa: Uma autoestrada que toca música. E eu juro que não é metáfora. Mas vamos por ordem. Sofia, começa pelo Mycel, porque acho que é o produto do dia que melhor representa esta mudança.
Sofia Almeida: Vamos lá. O Mycel é dirigido a quem trabalha por projetos para clientes — agências, freelancers, consultores. A tese do fundador é uma que eu acho que qualquer pessoa que já fez trabalho de cliente reconhece imediatamente: se faz trabalho de cliente, você é o último par de olhos em tudo. Cada relatório, cada atualização, cada apresentação. E é isso que limita quantos clientes consegue ter. E piora à medida que cresce.
Rafael Costa: E o Mycel apresenta três saídas possíveis para esse gargalo, todas com preço calculado. Contratar alguém — 45 mil dólares mais seis semanas de integração. Continuar a fazer tudo você próprio todas as noites. Ou recusar trabalho. Não há uma quarta opção boa, e é aí que eles entram.
Sofia Almeida: E como entram? Aqui é onde as coisas ficam concretas. O Mycel não é uma janela de chat. Cada trabalho recebe a sua própria máquina — um sandbox descartável que executa o trabalho e é destruído no fim. O agente nunca guarda as suas credenciais, as suas chaves. E nada chega ao cliente sem a sua aprovação.
Rafael Costa: Espera, deixa-me sublinhar isso, porque acho que é a parte mais importante. Um chat normal, segundo eles próprios, "escreve bem, mas esquece-se do que você corrigiu no momento em que fecha a aba". No mês seis custa-lhe o mesmo que na semana um — ou seja, não aprende nada consigo. O Mycel faz o contrário: escreve contra o que aquele cliente recebeu no mês passado, mantém os itens em aberto entre entregas, e quando você edita antes de aprovar, guarda as duas versões.
Rafael Costa: O diff — a diferença entre o que o agente escreveu e o que você corrigiu — é exatamente aquilo de que ele aprende.
Sofia Almeida: E há mais uma camada de controlo de qualidade que eu achei muito inteligente. Eles dão um exemplo: o resumo diz quatro resultados, mas a tabela lista cinco. Em vez de deixar isso passar, o rascunho é retido e o sistema exige que explique a discrepância — e você nem chega a vê-lo nesse estado.
Rafael Costa: E ainda há cinco cronómetros automáticos já ativos na demo. Coisas que ninguém começa de manhã: cobrar o que está pendente, retomar trabalho que parou, manter o negócio visível. Isso corre no relógio deles, não no seu.
Sofia Almeida: E o fundador termina a apresentação com uma pergunta genuína: qual é a parte do trabalho de cliente que você nunca deixaria uma máquina tocar? O que é interessante é que a comunidade respondeu menos a essa pergunta e mais ao mecanismo de aprendizagem. Um comentarista disse exatamente que a camada de aprovação e o facto de aprender com as edições passadas lhe pareceu muito mais útil do que "mais uma janela de chat".
Sofia Almeida: Outro disse que gostava de saber como consegue corrigir um rascunho uma única vez e deixar o Mycel aprender com esse processo.
Rafael Costa: Mas houve perguntas afiadas, e bem. Um utilizador que gere alguns clientes cujos relatórios não se parecem uns com os outros perguntou: se eu corrigir um deles, isso muda a forma como os outros são redigidos? É uma pergunta importante sobre como a aprendizagem funciona — se é por cliente ou global.
Sofia Almeida: E outra pergunta muito prática: quando o Mycel redige algo para um cliente, quanto disso está certo à primeira? Quanto do trabalho é ler e corrigir, versus simplesmente aprovar? Repara que isso é a pergunta sobre a qual o valor real do produto assenta. Se você aprova 95% sem tocar, é uma revolução. Se corrige quase tudo, é um editor caro com passos extra. O lançamento não dá um número — e merecemos um número.
Rafael Costa: Exato. E eu queria ser claro connosco, e com os ouvintes: tudo o que o fundador descreve são afirmações dele. A correção automática de discrepâncias, o diff como mecanismo de aprendizagem — são funcionalidades descritas, há uma demonstração com os cronómetros, mas não temos resultados verificados de utilizadores reais. As reações da comunidade são entusiasmo pela abordagem, não testemunhos de uso prolongado.
Sofia Almeida: Bem posto. E é aqui que o Epismo entra — que é o problema vizinho, mas de um ângulo diferente. O fundador do Epismo conta uma história que eu acho que todos nós vivemos. Começa-se num ChatGPT, continua-se no Claude, acaba-se no Cursor, e depois entrega-se a um colega. Os modelos estão cada vez melhores no trabalho em si — mas o trabalho não se move com eles.
Rafael Costa: E ele faz uma distinção que eu achei precisa: um rascunho move-se. A decisão por trás do rascunho não. E ele viveu isso na preparação do próprio lançamento. A equipa tinha decidido não afirmar que o Epismo captura automaticamente todas as conversas. Um rascunho passou de uma IA para outra — mas a decisão não viajou com ele — e a versão seguinte implicava exatamente o que tinham decidido não dizer. Nada estava errado com o modelo. Copiaram o texto, não o trabalho à volta do texto.
Sofia Almeida: E a solução do Epismo é dar a esse trabalho um lugar fora de qualquer chat: o Case. Um Case guarda o resultado atual, as decisões por trás, as revisões e o próximo passo. Amanhã de manhã, ou um colega, ou outra IA, abrem o mesmo trabalho e sabem para que é que ele serve — sem re-briefing.
Rafael Costa: E há uma funcionalidade chamada Auto review que dá uma segunda olhada ao resultado guardado — assinala o que precisa de ser verificado sem alterar o original. O exemplo deles: um caso de renovação de cliente onde o Auto review escreve "a utilização não tem fonte, a alegação de churn ainda é uma suposição". Aí a próxima interação no Cursor ou no Claude começa a partir dessas notas.
Sofia Almeida: E eles foram mais longe: usaram o Epismo para preparar este lançamento — posicionamento, vídeo, pitch de vendas — e publicaram o rasto real, o histórico do Case, para que qualquer pessoa possa inspecionar. É um gesto de transparência raro. Se eles não têm confiança no produto, não fizeram isso.
Rafael Costa: Agora, uma nota de honestidade que a própria comunidade levantou. Um comentarista notou que este é o sétimo lançamento deles no Product Hunt e perguntou diretamente: o que mudou de verdade desde a última vez, além do pitch reembalado? É uma crítica legítima e merece resposta — que ainda não a vimos.
Sofia Almeida: E depois há a pergunta final que liga os dois produtos: o fundador perguntou à comunidade — o que é que o Epismo teria de preservar antes de vocês confiarem nele com o vosso trabalho? E alguém respondeu, meio a brincar, "o copiar e colar pelo menos faz-me sentir que ainda sou necessário". Eu ri-me, mas há verdade nisso. Há uma ansiedade real: quando o contexto é capturado automaticamente, qual é o nosso papel?
Rafael Costa: Que nos leva exatamente ao tema seguinte — porque se o agente vai executar, alguém tem de vigiar a qualidade e garantir que ninguém foi enganado. E há dois produtos que abordam isso de formas opostas mas complementares. O primeiro é o Harbor. E a história dele começa com uma punhalada traseira que muita gente conhece.
Sofia Almeida: O fundador usou o Evernote durante mais de uma década. Correio digitalizado, boletins escolares dos filhos, gravações de reuniões, quinze anos de notas. Depois o Evernote foi vendido, o preço praticamente duplicou, o plano gratuito encolheu para cinquenta notas, e retirar os próprios dados tornou-se mais difícil.
Rafael Costa: E aqui está o detalhe que eu adorei: em vez de fazer um ataque vago, eles contaram as 500 reviews mais recentes do Evernote na App Store americana e publicaram a análise completa. Das negativas, apenas 9% mencionam bugs, crashes ou problemas de sincronização. 54% falam de preço. A frase deles resume tudo: "o produto melhorou enquanto o acordo piorou".
Sofia Almeida: E o Harbor é construído para corrigir o acordo, não só o produto. É um segundo cérebro privado: notas, documentos digitalizados, PDFs, fotos e gravações, tudo num sítio e tudo pesquisável. A pesquisa lê as palavras dentro de fotos e PDFs digitalizados — incluindo caligrafia. As gravações tornam-se transcrições pesquisáveis. Eles dão um exemplo concreto: pesquisas por "receipt" e aparece a fatura de uma oficina de uma F-250 de 2023, dentro de um PDF digitalizado, com o texto realçado.
Rafael Costa: No que toca a promessas, eles são quase teimosos. Preço único — um plano, 8,25 dólares por mês no anual. Preço trancado por três anos, depois teto de 10% ao ano. Por escrito. E a promessa de nunca ser refém: se parar de pagar, a conta fica apenas de leitura, mas você continua a poder exportar e apagar tudo. Exportação completa em todos os planos — HTML, Markdown, ENEX — mais uma API aberta, um CLI e um servidor MCP.
Sofia Almeida: E há outras escolhas de design que valem referência. Apps genuinamente nativas — Mac, Windows, iPhone, iPad, Android, web e até um terminal — sem Electron, funcionam offline. Importação do Evernote num único passo, com cadernos, etiquetas, checklists, anexos e web clips. Encriptação opcional de conhecimento zero, por nota ou por caderno, com as chaves suas. E uma decisão que me surpreendeu positivamente: não construíram nenhuma assistente de IA dentro da app.
Sofia Almeida: Em vez disso, ligam o ChatGPT ou o Claude que você já paga e deixam que pesquise e organize as suas notas.
Rafael Costa: Que é uma declaração de princípios quase provocatória: "em vez de nos pagarem por uma IA pior incluída", dizem eles. E respondem à pergunta que os ouvintes já conhecem do nosso episódio anterior — o que acontece quando confias e depois as regras mudam? A resposta do Harbor é: nada pode mudar, está escrito.
Sofia Almeida: Um comentarista chegou a dizer que o Evernote tinha tornado a exportação impossível, e esperava que eles tivessem resolvido isso — o que confirma exatamente a dor que o Harbor ataca. Agora, o segundo produto deste bloco aplica a mesma ética, mas à informação, não ao preço. Chama-se YABAI, e é uma app de gíria japonesa.
Rafael Costa: Explica bem, porque é mais interessante do que parece. O criador é um developer a solo do Japão, e o problema que descreve é este: encontra-se com pessoas que estudaram japonês durante anos e ainda não conseguem acompanhar um grupo de chat. O vocabulário que carrega a conversa do dia a dia — gíria, linguagem da internet, palavras de fandom — é exatamente o que os livros escolares deixam de fora.
Sofia Almeida: E ele queria construir algo que não fosse mais uma app de estudo. Sem rachas, sem testes, sem XP, nada que o culpe por perder um dia. A app funciona como um snack: tipografia japonesa gigante, uma palavra por cartão, passas o dedo para descobrir, guardas as que amas. São 308 palavras em oito categorias — gíria, internet, otaku, reações, fofura, frases do dia a dia, coisas de anime, e uma categoria chamada "intraduzível".
Rafael Costa: Dá-nos alguns exemplos, porque são saborosos.
Sofia Almeida: Claro. Yabai — que é simultaneamente "incrível", "terrível" e "insano", dependendo do contexto. Oshi — o teu favorito único e absoluto, do mundo otaku. Kusa — o "lol" japonês, que literalmente significa erva, porque em japonês rir-se escreve-se com caracteres que parecem relva. Emoi — belo de uma forma que dói. E tsundere — espinhoso por fora, doce por dentro, a que os fãs de anime conhecem bem.
Rafael Costa: E cada palavra tem cinco coisas. O significado, uma frase original japonesa traduzida — nunca citações, nunca marcas. A "vibe" — se é seguro usar, só com amigos, ou se exige cuidado, mais pistas de tom. Uma nota cultural. E uma história sobre a origem da palavra.
Sofia Almeida: E é na história que a honestidade entra. Cada palavra é pesquisada e escrita primeiro em japonês, depois traduzida para 13 idiomas — não traduzida à máquina a partir do inglês. E quando a origem de uma palavra é genuinamente disputada — e o próprio yabai é o exemplo, ninguém sabe ao certo donde vem — a app diz "ninguém concorda" em vez de escolher uma história bonita.
Rafael Costa: E ele explica porquê com uma frase que vale transcrever: "etimologia inventada está por todo o lado no conteúdo sobre gíria, e eu não queria juntar-me a isso". É a mesma promessa do Harbor, aplicada ao conhecimento: não te vamos contar uma história arrumada que não é verdadeira.
Sofia Almeida: E as escolhas de produto seguem a mesma linha: é uma app paga, sem anúncios, sem subscrição, sem registo, funciona offline, e nada do que recolhe sai do telemóvel. A comunidade fez perguntas práticas — se está planeada uma versão iOS, se é gratuita ou paga. E uma pergunta afiada: porquê exatamente 308 palavras? É um conjunto completo, "agora consegues acompanhar conteúdo nativo", ou um pacote inicial com mais packs planeados? Ainda não vimos resposta.
Rafael Costa: Vamos mudar de ar. Da promessa por escrito passamos para o desktop — especificamente, para o desktop que a Apple decidiu redesenhar sem perguntar a ninguém.
Sofia Almeida: Pois. Em 2025, no macOS 26 Tahoe, a Apple removeu o Launchpad — aquela grelha de apps em ecrã inteiro que podia arrumar como quisesse. E no macOS 27 continuou igual. O substituto oficial é a vista de Apps no Spotlight, que ordena tudo por você e não deixa criar pastas.
Rafael Costa: E aí entra o Launchie, construído por um developer a solo chamado Nick. Ele diz que perdeu a forma como abria apps há anos — uma grelha arranjada por si, com pastas que encontrava sem ler um único nome. Portanto reconstruiu o Launchpad que sentiu falta — e depois continuou.
Sofia Almeida: O que ele fez: a grelha arranjável, com ordenação por arrastar que persiste. Pastas ilimitadas — tudo isto gratuito. E depois há os Spaces: páginas separadas de apps para o trabalho, os jogos ou o design, mudadas com um swipe. Pesquisa instantânea e um acesso rápido para apps recentes e mais usadas.
Rafael Costa: E a versão Pro é um pagamento único, sem subscrição: o seu fundo de ecrã desfocado atrás da grelha, como no original, hot corners, apps escondidas, e um gesto de pinçar que abre o Launchie em vez da vista de Apps da Apple. Está na Mac App Store, em download direto e no Homebrew.
Sofia Almeida: E as provas são concretas: 4,6 estrelas de 5 em 141 avaliações na Mac App Store, e cobertura de sites como o iDownloadBlog, que lhe chamou "a melhor alternativa ao Launchpad para o macOS Tahoe". As reviews dos utilizadores são substantivas — um diz que é "de longe a melhor" de todas as substituições que experimentou, outro que "tem mais funcionalidades do que o Launchpad alguma vez teve e já não sinto a falta dele".
Sofia Almeida: Outro elogia a reatividade do developer: fez sugestões de personalização e foram implementadas depressa.
Rafael Costa: E há até uma review que usa uma expressão que eu adorei: "o un-Sherlock'ing do Launchpad" — uma referência ao Sherlock, o caso histórico em que a Apple copiou e matou um produto de terceiros. Aqui é o inverso: o utilizador diz que a Apple fez o Sherlock ao próprio produto, e este developer devolveu-o.
Sofia Almeida: E a mesma dinâmica — pequenos developers a corrigir lacunas de gigantes — aparece noutra app do mesmo ecossistema. O SmartPause. O criador, Yasin Özmen, conta o problema: no Mac, a tecla de play/pause não vai para a app que está a tocar — vai para o que o macOS lembra como "Now Playing", que está muitas vezes desatualizado. Você está a ver um vídeo no YouTube, prime a tecla, o vídeo continua e abre-se o Apple Music.
Rafael Costa: Isso aconteceu-me. Não, espera — não posso dizer isso. Mas sei exatamente do que ele fala, porque é uma daquelas frustrações que as pessoas reconhecem instantaneamente.
Sofia Almeida: A solução técnica é elegante: em cada pressão da tecla, o SmartPause pergunta ao Core Audio — a API pública de som do macOS — qual o processo que está a produzir som naquele momento, e envia o comando para essa app. O Apple Music fica fechado. E se nada estiver a tocar, retoma a última coisa que estava em pausa.
Rafael Costa: E há um caso mais fino: duas apps a tocar em simultâneo. Uma pressão única comuta — a app que está a tocar fica em pausa, a outra começa, e sobe no topo. Uma dupla pressão faz play/pause na app selecionada. E há um widget que mostra o que aconteceu e o que a próxima pressão fará.
Sofia Almeida: E as garantias de privacy e design são claras: gratuito, código aberto com licença MIT, sem analytics, sem contas. Uma única permissão — Acessibilidade, para ouvir as teclas de media. Sem microfone, sem gravação de ecrã. A deteção de áudio corre apenas quando você prime a tecla, portanto custo zero quando está inativo. E apps sem adaptador recebem a tecla devolvida ao sistema intacta — nunca uma tecla morta.
Rafael Costa: E uma nota humana que eu gosto: se a app corrigiu uma irritação diária, pode pagar-lhe um café — e o dinheiro vai para o Developer ID da Apple, para que a app possa ser notarizada. É um pedido honesto com um destino concreto.
Sofia Almeida: E o terceiro produto deste trio é diferente no tom — não corrige uma decisão da Apple, resgata uma sensação. O Scrapboard Cloud 4 para iOS e iPadOS. O conceito: recriar a porta do frigorífico da família — aquele quadro de avisos caótico e acolhedor onde se pendurava tudo — no ecrã.
Rafael Costa: É um produto com doze anos de história por trás, o que é raríssimo neste contexto. A versão 4 para Mac já existia, e esta é a companheira móvel. Sincroniza entre iPads, iPhones e Macs via iCloud e CloudKit, com notificações push instantâneas quando alguém edita a partir de outro dispositivo.
Sofia Almeida: E tem seis tipos de camadas: texto, com controlo total de tipografia e cores; imagem, direto da biblioteca de fotos; símbolos nativos da Apple, os SF Symbols; compromissos, com contagens decrescentes em tempo real; conteúdo web embebido ao vivo por URL; e mapas, com localizações GPS precisas ou pesquisa de marcos.
Rafael Costa: E no que toca a privacidade, a ficha da App Store diz "Data Not Collected" — não recolhem nada. Com um developer individual, Tomoyuki Okawa, que mantém uma lista impressionante de apps pequenas e focadas.
Sofia Almeida: O padrão dos três é o mesmo: a Apple removeu, restringiu ou complicou algo que as pessoas gostavam, e um developer pequeno reconstruiu — melhor, às vezes, do que o original. O Launchie com mais funcionalidades do que o Launchpad alguma vez teve. O SmartPause corrigindo uma falha de lógica do sistema. O Scrapboard resgatando uma sensação doméstica que nenhuma app grande jamais tentaria.
Rafael Costa: Agora, se você é um desses pequenos developers e construiu algo para outros developers — como chega a eles? Esse é o problema seguinte. E aqui temos dois produtos, um de cada lado do mesmo funil.
Sofia Almeida: O primeiro é o Morsa Signals, dirigido a fundadores de developer tools e equipas de GTM. A equipa diz que constatou um padrão recorrente: produtos fortes que lutam para chegar aos developers certos, explicar a sua relevância e tornar-se descobriríveis através de pesquisa e de sistemas de IA. E juntaram quatro fluxos de trabalho num só sítio.
Rafael Costa: Percorre-os, porque a diferença entre eles é o que faz o produto interessante.
Sofia Almeida: O primeiro é First Users — para fundadores sem equipa de vendas: cola a descrição do produto e recebe uma lista pequena e específica de developers que já estão a lidar com o problema exato que você resolve. O segundo é Contact Search, para escalar outreach: transformam a descrição do produto em ângulos de pesquisa personalizados, procuram no GitHub e noutras fontes públicas técnicas, e cada contacto vem com a razão concreta pela qual se encaixa mais uma frase de abertura personalizada.
Rafael Costa: E é nos exemplos que se vê o valor. Dizem eles: "a maioria das ferramentas do GitHub assinala que algo aconteceu. Nós dizemos porque é que isso importa — e o que dizer". O exemplo: um senior engineer cujos commits públicos mostram uma solução improvisada para exatamente este problema — e a abertura é "vi a sua solução alternativa, aqui está uma substituição pronta a usar". Não é um nome numa base de dados; é um sinal interpretado.
Sofia Almeida: O terceiro fluxo é a auditoria de visibilidade em IA — verifica se sistemas como o ChatGPT, Perplexity, Claude ou os AI Overviews do Google têm contexto suficiente para classificar, comparar e recomendar a sua ferramenta nas situações certas. Dá uma pontuação — o exemplo no site é 62 em 100 — e sinaliza os buracos: sinais de categoria fracos, falta de contexto comparativo, nenhum ICP ou ângulo de comprador claro. E depois aponta o fluxo que fecha cada buraco.
Rafael Costa: E o quarto é o rastreio de concorrentes — uma primeira leitura de quem são os concorrentes reais, com o que vigiar: atividade no GitHub, releases, mudanças de preços, lançamentos no Reddit, Hacker News e Product Hunt. Eles enfatizam que cada fluxo começa do produto real, da audiência e do problema — não de um relatório genérico ou de uma base de dados.
Sofia Almeida: E uma limitação que eles próprios assumem numa funcionalidade: no rastreio de conversas nos canais de developers, eles mostram as conversas que valem a pena — nunca publicam nem respondem em seu nome. É uma escolha ética explícita, e também um limite funcional.
Rafael Costa: A comunidade reagiu bem à pontuação de visibilidade em IA — um comentarista disse que é "uma funcionalidade muito útil e necessária". Mas houve uma pergunta importante: "a audiência é genuinamente específica e pode ser difícil de alcançar para equipas de GTM — como garantem que os contactos são relevantes e atualizados?" Isso é a pergunta que decide se o produto vale o preço, porque uma lista de contactos desatualizada é pior do que nenhuma.
Sofia Almeida: E agora o produto do outro lado do funil. Você já encontrou os developers certos, já os converteu em clientes — e agora tem de lhes mostrar algo dentro do seu produto SaaS. Os dashboards para clientes. Isso é o Embedful.
Rafael Costa: E o fundador, Fernan, descreve o problema com precisão: muitas equipas de SaaS já têm os dados. O que não querem é um rollout de BI de semanas, infraestrutura extra de analytics, ou engenharia prolongada só para mostrar aos clientes algumas métricas importantes.
Sofia Almeida: O fluxo do Embedful: ligar os dados existentes — PostgreSQL, MySQL, Firebase, Google Analytics, folhas de cálculo, APIs — desenhar o dashboard visualmente, mapear cada cliente à sua conta, e embeber de forma segura. É multi-tenant: um único dashboard torna-se uma vista segura e personalizada para cada conta, porque o mapeamento por ID de conta garante que cada cliente só vê os seus dados. E o acesso é feito com tokens JWT de vida curta.
Rafael Costa: E o argumento económico deles é claro: zero serviços para instalar — o Embedful hospeda a camada do dashboard. Um dashboard para manter — atualiza uma vez e todas as vistas de clientes ficam sincronizadas. Eles dizem: "entregue o dashboard, não uma plataforma de analytics". E faz sentido — plataformas de BI completas existem para equipas que precisam de modelação de dados, SDKs, gestão de releases. Se o trabalho é um dashboard seguro para clientes, é excesso.
Sofia Almeida: E o Embedful tem, curiosamente, um modelo de preços e uma atenção ao detalhe que lembram os produtos da nossa conversa anterior: um plano, com 30% de desconto nos primeiros três meses com o código PH30, ou 20% de poupança nos planos anuais. Templates prontos — dashboard de utilização de clientes, métricas de SaaS, relatórios de agência.
Sofia Almeida: E uma pergunta prática de um utilizador com app em cinco idiomas: o interface do dashboard alinhar-se-á automaticamente ao idioma do utilizador ou fica em inglês? Ainda sem resposta visível.
Rafael Costa: E se você é um developer que vende a developers, há ainda um terceiro ator neste espaço que vale mencionar rapidamente, porque resolve um pedaço específico do mesmo problema. O Answers by Context.dev.
Sofia Almeida: É uma API. A tese do fundador Yahia: se construiu um produto que precisa de informação da web, sabe como uma pergunta simples se transforma num projeto de engenharia. Encontrar as páginas certas, fazer scraping, alimentar um modelo, transformar o output em algo que o seu código consiga usar. Eles fazem disso uma única chamada de API: você dá uma tarefa de pesquisa e um exemplo do JSON que quer de volta.
Sofia Almeida: O serviço pesquisa a web, lê as páginas relevantes, e devolve dados estruturados com os URLs de fonte.
Rafael Costa: Exemplos: "encontra os planos de preços desta empresa e o que está incluído em cada um", "este produto suporta self-hosting?", "compara estas três ferramentas em preços e integrações". Há um modo Fast para pesquisas focadas e um Ultra para pesquisa mais profunda. E já há pelo menos um utilizador que diz ter integrado no seu loop de agente para pesquisa de produto e outreach, com boa qualidade de output — um testemunho real, ainda que breve.
Sofia Almeida: E mencione-se, porque liga ao tema da honestidade, o ManyPI — que é um agente de vendas com um posicionamento direto: descreve o seu cliente ideal numa frase, e ele encontra empresas e pessoas na web, verifica os emails antes de enviar, valida pontos de dor e gatilhos de compra, e envia outreach personalizado.
Sofia Almeida: Tem CRM, caixa de entrada unificada, campanhas multi-etapa a partir dos seus próprios inboxes, e um servidor MCP para pedir leads diretamente ao Claude ou ao ChatGPT — "a lista vai para a sua tabela, não para a transcrição".
Rafael Costa: E as perguntas da comunidade foram as certas: como encontram os leads — pesquisam na web em bruto ou têm parceiros como o Apollo? Como garantem que estão atualizados e verificados? E quanto tempo leva uma pesquisa? São exatamente as perguntas que separam um gerador de leads real de um brilhante gerador de promessas.
Sofia Almeida: Bem, chegámos ao último bloco. E eu queria fechar com algo mais leve, porque depois de uma hora a falar de sandboxes descartáveis e tokens JWT, precisamos de ar. E o produto perfeito para isso chama-se The 101 Plays Itself — "a 101 toca-se a si mesma".
Rafael Costa: Explica, porque eu ainda estou a processar a ideia.
Sofia Almeida: É uma página web que toca uma câmara de trânsito pública da Caltrans — o departamento de transportes da Califórnia — ao vivo, na US-101 em Studio City, em Los Angeles. Trânsito real na faixa sul, neste minuto. E cada carro que cruza a linha toca uma nota. A música está a ser feita no seu browser, agora, por carros que passam.
Rafael Costa: E como funciona tecnicamente? Porque é que isto é mais do que um gimmick?
Sofia Almeida: Há dez patches de amostragem no asfalto — dois por cada uma das cinco faixas. E não são retângulos: cada um é uma fatia da sua própria faixa, inclinada e estreitando-se com a distância, exatamente como a faixa. O browser lê esses patches quinze vezes por segundo e observa quando a estrada deixa de se parecer com a estrada. Isso é um carro. E isso é uma nota.
Rafael Costa: E há uma armadilha de velocidade real embutida.
Sofia Almeida: Sim — a armadilha tem 13,4 metros. Um veículo aciona um patch e depois o outro, e o intervalo entre os dois dá a velocidade. Quanto tempo leva a cobrir um patch dá o comprimento — e é assim que a página distingue um camião de um carro e dá-lhes vozes diferentes. Tudo corre no browser — sem servidor, sem amostras, sem gravações. E se voltar às três da manhã, vai ouvir uma autoestrada quase vazia. A timestamp gravada no topo da imagem é real.
Rafael Costa: E tem até um modo de gravação para quando as câmaras da Caltrans estão offline — porque toda a rede de vídeo deles fica por vezes inacessível, e aí só resta esperar. Ou ouvir três minutos gravados da mesma autoestrada. E o projeto já foi destaque: o kottke.org chamou-lhe "um instrumento musical", a NBC4 Los Angeles fez-lhe um segmento no seu novo formato de notícias, e o The Drive escreveu sobre ele como "estranhamente belo" — infraestrutura como música.
Sofia Almeida: Estranhamente belo é a expressão certa. E há uma métrica na página que eu acho encantadora: quantas notas já foram tocadas, a que velocidade passava o último carro, quantos camiões, quantas faixas, há quanto tempo está a ouvir. É um instrumento com estatísticas.
Rafael Costa: E agora quero ligar isto ao penúltimo produto, porque parece desconexo e não é. O Termphin é um cliente SSH para telemóvel — e é a exata antítese do brinquedo. É utilitário sério com alma.
Sofia Almeida: O fundador construiu-o porque continuava a perder trabalho no telefone. Um job de longa duração, uma sessão de editor, ou um agente de código com IA que morria no momento em que bloqueava o ecrã ou trocava de wifi para dados móveis. A solução habitual é instalar e configurar tmux em cada servidor — o que é chato. Então ele adicionou um pequeno helper em Rust que o Termphin carrega por SSH e que mantém a shell viva no servidor, mesmo quando a ligação cai.
Rafael Costa: E é aqui que a ligação ao nosso primeiro tema aparece. Ele escreve explicitamente que funciona muito bem com agentes de código como o Kilo Code, o Claude Code, o OpenCode e o Codex CLI da OpenAI — porque as tarefas deles correm durante muito tempo, e não as perde quando perde a ligação ou o processo da app é morto pelo sistema. É literalmente o mesmo problema do Epismo — o trabalho tem de sobreviver à interrupção — mas ao nível da shell.
Sofia Almeida: E o detalhe técnico que um comentarista percebeu imediatamente: "a parte do agente que segura a shell no servidor é o bit interessante, versus apenas um cliente estilo mosh. Esse agente é algo que você instala no servidor ou o Termphin carrega-o automaticamente na primeira ligação?" Ele carrega-o automaticamente por SSH, e um serviço em primeiro plano mantém o socket quente para que o sistema não o congele.
Rafael Costa: E há todo um arsenal à volta: um terminal desenhado nativamente, não numa web view — portanto htop, vim e ecrãs inteiros de TUI renderizam como num desktop, sem caracteres de caixa desfeitos. Um browser SFTP com editor de sintaxe e pré-visualização de imagens. Snippets de comandos com paleta de pesquisa. Túneis SSH locais e remotos. Chaves geradas ou importadas, guardadas encriptadas no telefone atrás de PIN ou impressão digital — nada é enviado para servidores deles.
Sofia Almeida: E detalhes de segurança que mostram cuidado: o Termphin verifica também a identidade do servidor — mostra a fingerprint na primeira ligação, recorda-a, e se a chave mudar, para e pergunta em vez de ligar ao que quer que tenha respondido. E há suporte para jump hosts no estilo ProxyJump, com a caixa do bastião a transportar o tráfego sem poder ler o que passa por ela — a sessão com a máquina real é encriptada de ponta a ponta.
Rafael Costa: E é gratuito, sem anúncios, sem compras na app. iOS e versões desktop estão em desenvolvimento, sem data. O repositório do terminal e do helper do servidor são públicos, portanto pode ler exatamente o que corre na sua máquina.
Sofia Almeida: E é por isso que fecho com isto, Rafael. Ao longo do episódio falámos de produtos que prometem por escrito, que aprendem com as suas correções, que recusam inventar etimologias, que devolvem o Launchpad. E no fim, uma página web que transforma uma câmara de trânsito num instrumento. O fio comum, eu acho, é atenção total a uma coisa pequena. O Mycel não tenta fazer tudo — tenta manter o seu cliente satisfeito e os seus erros corrigidos.
Sofia Almeida: O YABAI não tenta ensinar japonês — tenta não te mentir sobre uma palavra. O The 101 não tenta fazer música popular — tenta ouvir uma autoestrada.
Rafael Costa: E talvez seja essa a lição dos últimos meses de lançamentos: a melhor tecnologia é cada vez mais a que faz uma coisa pequena, com atenção total, e tem a coragem de dizer o que ainda não sabe — o que acontece quando corriges, quando as regras mudam, quando ninguém concorda sobre a origem de uma palavra.
Sofia Almeida: E com isso, terminamos. Eu sou a Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu o Rafael Costa. Obrigado por nos ouvirem — e se alguém aí estiver preso num semáforo na 101, saiba que o seu congestionamento é, tecnicamente, uma composição. Até ao próximo episódio.