
0908 | Bits e Notícias: da sala de estar ao código aberto
Show notes
Uma viagem pelas notícias da semana: televisões que escutam, código antigo que já não é seguro, migrações para software livre, IA a resolver matemática e um desfile de curiosidades — de urinóis sem salpicos a leitores de cartões de crédito.
Linha do tempo
- 00:00:04 Abertura
- 00:00:48 Televisões que escutam
- 00:03:16 Consumidores: carros autónomos, reparação e anúncios
- 00:07:58 Migrações e soberania digital
- 00:11:40 Código aberto no desktop e nos dados
- 00:14:43 Segurança: segredos do passado
- 00:17:54 IA, matemática e programar como arte
- 00:21:04 Curiosidades que valem a pausa
- 00:24:18 Da história da tecnologia ao ecrã
- 00:26:08 Encerramento
Links relacionados
- Disconnect your LG television from the internet, now
- LG smart TVs caught logging audio with screen off and snooping on local devices
- A Tesla ran a stop sign and killed a man, Full Self-Driving/Autopilot was on
- Smartphone makers don't bother to comply with EU repairability requirements
- TiVo to charge money for skipping commercials in your own recordings
- Switzerland's Federal Government Is Replacing Microsoft on 3k Computers
- Leaving VMware just got harder after Broadcom pulled VDDK downloads
- VMware migration reduces Tottenham Hotspur's licensing fees by 85 percent
- Jellyfin 12.0
- TALA Is Open-Source
- Live map of public transport in Belgium
- I've factored the RSA keys of a Certificate Authority from the 90s
- Show HN: Stuxnet – A reconstructed source code of the infamous cyber-weapon
- Apparently CodePen 2.0 sends data to their servers as you type
- Caltech Mathathon – first hackathon ever devoted to research level mathematics
- Programming is Art
- Speculative Decoding in vLLM on AMD GPUs
- Tiny $70 Xteink X3 e-reader
- De-Brainrot Vacations
- Watch Los Angeles get built, one building at a time (1880–2026)
- Splash-free urinals (2025)
- Bill Gates tries to install MovieMaker
- bzip3
- 'You Can See Everything' Review: Nathan Fielder's Doc About Elizabeth Holmes
Este episódio é produzido pela Bri. O Bri usa tecnologia avançada de IA para transformar os feeds importantes para você em podcasts feitos para ouvir. Fale conosco em hi@bri.so.
Transcript
Sofia Almeida: Boa noite, e bem-vindos a mais uma edição do nosso podcast de discussão, o meu nome é Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. Temos uma noite carregada, e há um fio condutor que atravessa quase tudo o que vamos falar hoje: quem controla a tecnologia que usamos. As nossas televisões que escutam, os carros que decidem por nós, as licenças que as empresas revogam, e do outro lado, as pessoas e os projetos que lutam para recuperar esse controlo.
Sofia Almeida: Começamos exatamente aí, com uma história que assustou muita gente nas últimas horas. A equipa da Gamers Nexus publicou uma investigação sobre as smart TVs LG, e o que encontraram é genuinamente desconfortável.
Rafael Costa: Vou resumir o essencial, porque há várias camadas. Primeiro: as televisões LG gravam e transcrevem conversas que acontecem na sala. Segundo: esses dados são enviados para a LG Ad Solutions, ou seja, a divisão de publicidade da empresa. Terceiro: o alcance é enorme, estamos a falar de 216 milhões de televisores monitorizados. E depois há duas descobertas que para mim são as mais perturbadoras.
Sofia Almeida: Pois, porque gravar conversas com a televisão ligada já é mau, mas o que os colegas da Gamers Nexus documentaram vai mais longe.
Rafael Costa: Exatamente. As LG recolhem áudio do microfone mesmo com o ecrã desligado. A televisão está aparentemente desligada, mas o microfone continua a captar o que se diz na divisão. E além disso, o software das televisões faz scan da rede local, ou seja, analisa os outros dispositivos ligados à mesma rede. A tua televisão está efetivamente a mapear a tua casa.
Sofia Almeida: E o conselho que a Gamers Nexus dá é brutalmente simples: desligar as televisões da internet. Sem ligação à rede, não há envio de dados.
Rafael Costa: E é um conselho que diz muito sobre o estado em que chegámos. Quando a única recomendação sensata é tratar uma funcionalidade central do produto como uma ameaça a desativar, isso diz-nos que o equilíbrio entre o que o consumidor quer e o que o fabricante quer se foi completamente abaixo.
Sofia Almeida: Aqui está a minha grande questão, e acho que é a que fica no ar depois desta revelação: onde estão as reguladoras? Estamos a falar de gravações de áudio em lares, possivelmente de conversas privadas, com o ecrã desligado, em 216 milhões de dispositivos. Em teoria, isto devia despoletar reações de proteção de dados um pouco por todo o mundo.
Rafael Costa: E é um ponto que vai gerar desacordo, previsivelmente. Haverá quem diga que o utilizador aceitou os termos quando configurou a televisão, e quem responda que ninguém aceitou, de boa fé, que a televisão escuta com o ecrã apagado. Essa distinção entre o que está formalmente consentido e o que uma pessoa razoável espera é precisamente o terreno onde estas discussões se vão travar. Por agora, a resposta prática que a investigação oferece é a desconexão.
Sofia Almeida: Fica a dúvida: vamos ver processos, multas, ou vamos apenas ver mais investigações como esta e continua tudo na mesma? É uma pergunta em aberto.
Rafael Costa: E a desconexão leva-nos a outra zona onde o utilizador perde o controlo, mas desta vez com consequências muito mais trágicas. Falemos do caso do Tesla em Nova Jérsia.
Sofia Almeida: Este caso é pesado, e vale a pena ser cuidadoso com os factos. Um Tesla Model 3, com o FSD, o Full Self-Driving, ou o Autopilot verificado como ativo no momento do acidente, passou um sinal de paragem e matou uma condutora de 82 anos.
Rafael Costa: A expressão "verificado como ativo" é importante. Não estamos a falar de rumores ou de versões contraditórias de testemunhas. O sistema de condução assistida estava engajado, foi confirmado. E ainda assim o carro não parou no stop.
Sofia Almeida: E depois vem a parte que para mim é a mais grave em termos de transparência. Nos campos do relatório à NHTSA, a agência de segurança rodoviária americana, a Tesla omitiu ou redigiu informação-chave.
Rafael Costa: Sim, e é aí que o caso deixa de ser apenas um acidente para se tornar uma discussão sobre responsabilidade. Se uma empresa envia relatórios ao regulador com campos essenciais redigidos, como pode o público e o próprio regulador avaliar o que aconteceu e com que frequência acontece? Cada caso isolado pode ter explicações, mas sem dados completos não há padrão visível.
Sofia Almeida: E liga diretamente ao dilema que vimos nas televisões LG, só que com vidas em jogo. Na TV, o pior cenário é privacidade. Aqui, o pior cenário já aconteceu: uma pessoa morreu. E a automação estava ativa, o que levanta a questão clássica de quem responde — o condutor que confiou no sistema, ou o fabricante que vendeu um sistema que não para nos sinais de paragem.
Rafael Costa: Essa pergunta da atribuição de responsabilidade é precisamente o que não tem resposta neste momento. E nota como os dois casos partilham uma estrutura: a tecnologia promete autonomia ao utilizador, mas os detalhes de como funciona e como falha ficam sob controlo do fabricante, que decide o que divulga.
Sofia Almeida: E o utilizador a perder terreno face às empresas é precisamente o tema da nossa próxima história, embora de uma forma mais mundana — mas reveladora. Falemos das regras europeias de reparabilidade dos smartphones.
Rafael Costa: Faz um ano que as regras entraram em vigor na Europa. A ideia era simples: os fabricantes de smartphones novos têm de publicar ligações com informação de reparação dos seus aparelhos. Um ano depois, o balanço da Right to Repair Europe é este: de 2.334 smartphones novos, apenas cerca de 18% listam essas ligações.
Sofia Almeida: Dezoito por cento. Ou seja, mais de quatro em cada cinco aparelhos novos não cumprem, ou pelo menos não tornam visível o cumprimento.
Rafael Costa: E o que é interessante nesta discussão é que aqui não há ambiguidade técnica. Não estamos a falar de sistemas complexos como condução autónoma. É publicar um link com documentação de reparação. A barreira é puramente de vontade e de fiscalização.
Sofia Almeida: E haverá certamente quem defenda que as regras são recentes e as empresas precisam de tempo de adaptação, e quem contra-argumente que um ano é suficiente e que sem sanções estas regras são letra morta. Eu inclino-me para o segundo campo, mas é uma discussão legítima.
Rafael Costa: E há uma ironia estrutural: a regra existia para dar ao consumidor a opção de reparar em vez de substituir, o que é também uma questão ambiental e económica. Se a informação não chega ao consumidor, a opção não existe na prática.
Sofia Almeida: E a TiVo aparece exatamente na mesma família, mas pela via dos anúncios. A partir de 2 de novembro de 2026, a TiVo remove o SkipMode, o salto automático de anúncios, da experiência gratuita, e está a testar um suplemento pago mensal para o recuperar.
Rafael Costa: Ou seja, uma funcionalidade que existia, que o utilizador usava, é retirada e transformada em fonte de receita. É o mesmo padrão: funcionalidades que o utilizador considerava adquiridas são convertidas em muros de pagamento.
Sofia Almeida: Repara como os três casos desta secção têm a mesma assinatura. O Tesla: automação falha, informação redigida. A reparação: regras que existem no papel mas que a maioria ignora. A TiVo: uma conveniência retirada e vendida de volta. Em todos, a empresa ganha margem e o utilizador perde poder.
Rafael Costa: E isso leva-nos naturalmente ao contra-movimento: o que acontece quando governos e organizações decidem exatamente o contrário — sair do controlo de um fornecedor. A Suíça está a fazer um desses movimentos, e é dos mais ambiciosos que se podem imaginar.
Sofia Almeida: Conta-nos. O que está a planear a Suíça?
Rafael Costa: A Suíça vai migrar 3.000 postos de trabalho federais de Microsoft 365 para uma alternativa open source, o openDesk. É um projeto piloto, com uma meta definida para 2027, e assenta numa lei de soberania digital. Não é um capricho tecnológico, é política de Estado: a ideia é que documentos e comunicações do Estado não dependam de um único fornecedor comercial estrangeiro.
Sofia Almeida: Três mil postos é um piloto com dimensão real. E é aqui que acho que a discussão se torna interessante, porque quem já esteve envolvido em migrações destas sabe que o desafio não é o software em si, é tudo o que o rodeia — hábitos, compatibilidade de documentos, formação.
Rafael Costa: Sem dúvida. E haverá certamente quem veja isto como uma aposta cara e arriscada, e quem veja como um investimento inevitável em independência. O argumento da soberania é forte: se os teus serviços do Estado dependem de um fornecedor, as condições desse fornecedor — preços, prazos, políticas de dados — tornam-se condições da tua administração pública.
Sofia Almeida: E a Suíça não está sozinha nesta conversa. No sentido oposto mas na mesma discussão está a Broadcom, que tomou uma decisão que complicou precisamente migrações — mas de empresas que queriam sair da VMware.
Rafael Costa: Este caso é quase surreal. A Broadcom retirou os downloads públicos do VDDK, o Virtual Disk Development Kit, sem qualquer explicação. O VDDK é uma peça fundamental para quem precisa de mover máquinas virtuais fora da VMware — ferramentas de migração dependem dele.
Sofia Almeida: E quando os administradores perguntaram o que se passava, o suporte respondeu apenas que está indisponível. Sem motivo, sem previsão, sem alternativa.
Rafael Costa: E é aqui que o caso ganha uma camada quase picaresca: a ferramenta que ajuda a migrar para fora desaparece. Quer seja intencional ou não — e ninguém sabe, porque não houve explicação — o efeito prático é aumentar o custo de saída do ecossistema VMware.
Sofia Almeida: Que é precisamente o oposto do que a Suíça está a fazer. Um movimento institucional de saída, uma barreira prática de saída. E há um exemplo real que mostra que a saída é possível, mesmo quando é difícil: a Tottenham Hotspur.
Rafael Costa: Sim, e é um caso que merece ser contado com cuidado porque desmonta o argumento de que "não há alternativa". O clube de futebol inglês trocou a VMware pelo HPE Morpheus VM Essentials e cortou as licenças em mais de 85 por cento.
Sofia Almeida: Mais de 85 por cento. Um clube desportivo, com necessidades de infraestrutura de TI reais, fez a migração e o resultado financeiro foi dramático.
Rafael Costa: E isso serve como contra-exemplo poderoso a qualquer narrativa de lock-in inevitável. Claro que cada organização é diferente, e uma migração destas tem custos e riscos próprios — ninguém deve interpretar isto como "é fácil". Mas o número de 85 por cento muda completamente a equação de custo-benefício para quem está a avaliar a saída.
Sofia Almeida: E imagino que a decisão da Broadcom de esconder o VDDK, vista ao lado deste número, só acelera o desejo de sair de quem estava em cima do muro. Cada vez que um fornecedor aperta o parafuso, o argumento para alternativas fortalece-se.
Rafael Costa: Exatamente. E as alternativas de que falamos a seguir não são compras de outro fornecedor — são projetos da comunidade, software livre a funcionar nas pessoas. Começamos pelo Jellyfin, que acabou de lançar a versão 12.0.
Sofia Almeida: O Jellyfin, para quem não conhece, é o servidor de media open source — o teu próprio Netflix caseiro. E a versão 12.0 tem uma simbologia engraçada: abandonam finalmente o prefixo "10." na numeração.
Rafael Costa: Durante anos foram 10.6, 10.7, 10.8, 10.9... chegou a haver brincadeiras na comunidade sobre quando chegariam ao 10.100. Saltar para o 12.0 é também uma declaração de maturidade do projeto.
Sofia Almeida: Mas atenção, quem atualizar tem um dever importante: a migração da base de dados exige backup. Não é uma atualização em que se carrega no botão e se esquece. E há uma mudança que pode apanhar pessoas desprevenidas: os nomes de utilizador passam a ser insensíveis a maiúsculas.
Rafael Costa: Isso parece um detalhe, mas em servidores de media partilhados em família ou entre amigos, onde há vários perfis, mudanças na autenticação podem causar confusões no primeiro arranque. O conselho prático é claro: backup antes de atualizar, sem exceção.
Sofia Almeida: E do servidor de media saltamos para as ferramentas de desenho, porque a Terrastruct tomou uma decisão que a comunidade recebeu muito bem: abriu o código da TALA.
Rafael Costa: A TALA é o motor de layout de diagramas de arquitetura da Terrastruct — é ele que decide como organizar as caixas e setas num diagrama, o que é um problema notoriamente difícil de fazer bem. Foi publicado sob licença MPL-2.0 e está incluído no D2 na versão 0.9.0.
Sofia Almeida: E aqui vale a pena parar num ponto: porque é que abrir um motor de layout importa, para além do gesto simpático?
Rafael Costa: Porque o layout é o coração de uma ferramenta de diagramas. Um diagrama de arquitetura com um layout mau é inútil, por mais corretas que estejam as ligações. Ao abrir a TALA, a Terrastruct permite que a qualidade desse motor seja usada, auditada e melhorada por outros — e integra-se num ecossistema, o D2, que já era aberto. É o contrário do padrão Broadcom: em vez de trancar a peça-chave, libertam-na.
Sofia Almeida: E o software livre não vive apenas em servidores e ferramentas de engenheiros. Há um exemplo do dia a dia que me parece excelente: um mapa ao vivo de todos os transportes públicos da Bélgica.
Rafael Costa: O site é o ovlive.be, e mostra em tempo real todos os autocarros, elétricos, metros e comboios da Bélgica. O detalhe crucial: foi construído com os dados abertos que os próprios operadores de transportes publicam.
Sofia Almeida: E é um bom lembrete de que quando as instituições abrem dados, aparecem coisas úteis que ninguém planeou. Ninguém encomendou este mapa — alguém o construiu porque os dados estavam lá.
Rafael Costa: E liga bem ao tema seguinte, porque os dados e o código antigo também podem voltar para nos morder. Passemos à parte de segurança, e temos duas histórias de segredos do passado.
Sofia Almeida: A primeira é espantosa. Um investigador fatorou as raízes de certificação RSA de 512 bits do E-Certify. E aqui o detalhe histórico é importante: esses certificados vieram incluídos no Netscape 4.51, em 1999.
Rafael Costa: E o tempo que demorou é o que faz esta história correr o mundo: cerca de 30 horas, num CPU Ryzen comum de desktop. Sem cluster, sem supercomputador. Um computador de secretária atual.
Sofia Almeida: O perigo não é que alguém vá usar o Netscape 4.51 — é que certificados antigos às vezes permanecem em cadeias de confiança modernas. Se uma raiz fraca de 1999 ainda é aceite por algum sistema, alguém com um Ryzen e 30 horas pode falsificar coisas que esse sistema considera confiáveis.
Rafael Costa: E é uma lição de higiene que se aplica a todos: as cadeias de confiança acumulam-se e ninguém as limpa. Vale a pena auditar o que os nossos sistemas ainda aceitam do passado. Porque a criptografia não apodrece nos nossos discos — apodrece no tempo.
Sofia Almeida: E do código criptográfico antigo passamos a um código ainda mais famoso: o Stuxnet. Um repositório no GitHub publicou o código-fonte reconstruído do Stuxnet — cerca de 15 mil linhas, obtidas a partir de binários descompilados.
Rafael Costa: Para contextualizar: o Stuxnet foi o verme que atacou centrifugadoras de urânio no programa nuclear iraniano, e é considerado um dos primeiros ciberarmas de escala estatal. O código original nunca foi publicado oficialmente. Este repositório é uma reconstrução, e está explicitamente destinado apenas a investigação e educação.
Sofia Almeida: E aqui há uma discussão genuína a ter. Haverá quem argumente que reconstruções assim são valiosas para investigadores e para ensinar defesa — só se estuda o que se pode ler. E quem se preocupe porque o Stuxnet é, afinal, uma arma, mesmo uma de outra época. Não me parece que haja conselho fácil aqui.
Rafael Costa: Acho que a distinção fundamental é entre binários descompilados e armamento funcional — uma reconstrução de código de 2010 para Windows e PLCs antigos não é uma arma pronta a usar hoje. Mas a linha é ténue e vale a discussão.
Sofia Almeida: E a terceira história desta secção é contemporânea e sobre hábitos: o CodePen 2.0. O novo editor envia o que escreves para os servidores do CodePen à medida que escreves, antes de sequer guardares.
Rafael Costa: E o risco concreto: segredos não guardados podem escapar por URLs de pré-visualização. Escreves uma chave de API no editor para testar qualquer coisa, nem chegas a guardar, e essa informação já foi para a cloud e pode estar exposta num URL de preview.
Sofia Almeida: É o hábito do programador de usar o editor como rascunho — e o rascunho, agora, é remoto. As três histórias juntas dizem a mesma coisa: o código antigo e os hábitos descuidados continuam a morder.
Rafael Costa: Do código que nos morde passamos a uma pergunta mais filosófica: o que é que a IA está a fazer, e o que é que não deveria fazer, ao trabalho criativo e técnico. A primeira história vem do Caltech.
Sofia Almeida: O Caltech Mathathon. Um hackathon de 40 horas, com 100 equipas, todas a usar modelos de IA de fronteira para atacar conjecturas matemáticas abertas. Aconteceu a 30 de outubro de 2026.
Rafael Costa: Quarenta horas e cem equipas a apontar os melhores modelos disponíveis a problemas que a matemática humana não resolveu. Isso é um experimento social fascinante, para além de um experimento matemático.
Sofia Almeida: E há duas leituras possíveis que vão colidir. A otimista: a IA como aceleradora — não substitui o matemático, dá-lhe alavanca para explorar espaços que sozinho nunca percorreria. A céptica: conjecturas abertas são abertas precisamente porque resistem a força bruta, e 40 horas de modelos de linguagem podem não produzir nada de substancial.
Rafael Costa: E é cedo para saber qual das duas se confirma — os resultados deste tipo de evento demoram a ser avaliados pela própria comunidade matemática, porque uma conjectura não se resolve com uma solução aparente, resolve-se com prova verificada. Fica a pergunta em aberto: até onde vai a IA na criatividade técnica?
Sofia Almeida: E essa pergunta ganha um contraponto bem-humorado num ensaio que andou a circular. O argumento: os verdadeiros programadores escrevem código como arte e não o entregariam à IA.
Rafael Costa: Com uma piada final magnífica, que é o que faz este ensaio valer a leitura: o próprio autor confessa que só programa por dinheiro.
Sofia Almeida: Rimo-me com isso, mas é mais perspicaz do que parece. O autor desfaz a própria tese no último parágrafo — se programas por dinheiro, o programa é um meio, e meios podem ser delegados. A distinção entre código como arte e código como trabalho é exatamente a distinção entre quem programaria de graça e quem não faria isso por nada.
Rafael Costa: E suspeito que a resposta honesta da maioria dos profissionais está algures no meio: há partes do trabalho que são artesanato e partes que são encanamento, e a IA está a tornar o encanamento delegável. O desacordo está em saber o que acontece à parte de artesanato com o tempo.
Sofia Almeida: E para quem quer ver a parte mecânica da IA a melhorar, há dados concretos: a vLLM publicou um blog sobre descodificação especulativa — com técnicas como MTP, EAGLE-3, DFlash e DSpark — em GPUs AMD, as MI300X e MI355X, com benchmarks sobre ROCm.
Rafael Costa: Descodificação especulativa, num parágrafo: em vez de o modelo gerar cada token um a um, um elemento mais pequeno tenta adivinhar vários de seguida e o modelo maior verifica — se acertar, ganhaste velocidade. É uma das técnicas mais efetivas dos últimos tempos, e ter benchmarks sérios no ecossistema AMD importa, porque a maior parte dos números que vemos é NVIDIA. Mais concorrência em benchmarks é bom para todos.
Sofia Almeida: E do esforço mental intenso passamos ao descanso — mas um descanso com intenção. Temos uma secção de curiosidades que vale a pausa, e começa com um leitor de e-books de 70 dólares.
Rafael Costa: O Xteink X3. O Atlantic fez-lhe um elogio entusiasmado, e a proposta de valor é curiosa: é do tamanho de um cartão de crédito, custa 70 dólares, e o que faz é aumentar o hábito de leitura de quem o usa.
Sofia Almeida: E atenção ao que ele não tem: não há ecrã tátil, não há retroiluminação. É deliberadamente espartilho. E o que tem de interessante para a nossa audiência: tem firmware aberto, o Crosspoint.
Rafael Costa: É quase o oposto da televisão LG com que abrimos o programa. A LG: um dispositivo caro, cheio de funcionalidades, que escuta com o ecrã desligado. O X3: um dispositivo barato, quase sem funcionalidades, open source, que só serve para ler. E é o segundo que as pessoas dizem melhorar-lhes a vida.
Sofia Almeida: E encaixa com um ensaio sobre "de-brainrot vacations" — férias de desintoxicação mental. A ideia: uma pausa lenta no campo, com leitura, e matemática e física como hobby, para reverter o declínio mental que a avalanche de conteúdo curto causa.
Rafael Costa: A premissa é provocadora — tratar a atenção como um músculo que atrofia e pode ser treinado de volta. Não sei se a ciência suporta a metáfora na totalidade, mas como prescrição de vida não parece má: menos scroll, mais livros, resolver problemas de física ao fim de tarde.
Sofia Almeida: E se é de mapas e exploração que gostas, temos uma joia: alguém mapeou todos os 1,1 milhões de edifícios da cidade de Los Angeles em 3D, coloridos pelo ano de construção, de 1880 a 2026.
Rafael Costa: E os dados por trás são o melhor da história: lidar para a forma 3D, e os registos do assessor fiscal da cidade para as datas de construção. Dados administrativos entediantes transformados numa máquina do tempo urbana.
Sofia Almeida: E é outro caso, como o mapa belga dos transportes, em que dados públicos são a matéria-prima. Podes literalmente ver a cidade a crescer — os bairros antigos, as ondas de expansão, onde LA parou e recomeçou.
Rafael Costa: E agora, para terminar esta secção com uma nota ligeira: o prémio Ig Nobel de Física de 2026 foi para o design de urinóis sem salpicos.
Sofia Almeida: Sério. Um artigo na PNAS Nexus analisou o design de urinóis do ponto de vista físico — dinâmica de fluidos aplicada — e o modelo recomendado chama-se "Nautilus". A forma, inspirada em conchas, direciona o fluxo de modo a não gerar salpicos.
Rafael Costa: É exatamente o espírito dos Ig Nobel: pesquisa real, metodologia séria, sobre um tema que faz toda a sala rir — e que depois faz pensar que ninguém tinha pensado nisso a sério antes. Dinâmica de fluidos a serviço da higiene pública.
Sofia Almeida: E a última secção traz-nos história da tecnologia, compressão de dados e cinema — uma mistura estranha que vai fazer sentido. Comecemos por um e-mail interno da Microsoft de 2003 que veio a público.
Rafael Costa: Este é delicioso. Em 2003, Bill Gates tentou descarregar o Movie Maker do site da Microsoft — e não conseguiu. E escreveu um e-mail interno furioso com a usabilidade do Windows e do site da própria empresa.
Sofia Almeida: O homem que construiu a Microsoft, na sua própria plataforma, no seu próprio site, incapaz de completar um download. E o e-mail é genuinamente furioso — não é uma nota polida, é alguém exasperado.
Rafael Costa: E o valor desta peça é a lição de humildade organizacional: os gigantes tropeçam, e tropeçam na frente de todos. Não é um problema de recursos — é um problema de ninguém na organização ter vivido a experiência do utilizador comum. Até o fundador teve de a viver para a ver.
Sofia Almeida: E para a nota técnica da secção: bzip3. Os benchmarks mostram que consegue rácios de compressão melhores que o zstd em alguns dados — o exemplo citado é o tarball do Perl — mas o desempenho é altamente dependente do conteúdo.
Rafael Costa: Essa dependência do conteúdo é o ponto essencial para quem escolhe ferramentas de compressão. Não existe "melhor compressão" no abstrato — existe melhor compressão para os teus dados. O bzip3 pode ganhar num tarball de Perl e perder no teu corpus. Testa com os teus ficheiros, não com os de outros.
Sofia Almeida: E terminamos no ecrã grande: o documentário de Nathan Fielder sobre Elizabeth Holmes, "You Can See Everything", produzido pela A24, com 174 minutos de duração, estreou no festival de Telluride.
Rafael Costa: É uma escolha curiosa de realizador — Fielder, que fez carreira no humor de desconforto, a pegar na história da Theranos, talvez a maior fraude tecnológica da última década. E três horas de filme é uma aposta séria, num festival prestigiado.
Sofia Almeida: E repara como fecha o círculo do nosso programa: começámos com uma empresa que escuta nos nossos salões, e acabamos com a história de uma empresa que prometeu milagres de diagnóstico que não existiam. Nos dois casos, a lição é a mesma — exigir transparência a quem nos vende tecnologia.
Rafael Costa: Pois. E se hoje fica uma ideia, é a que atravessou tudo: entre desligar a TV da internet, exigir os dados do acidente, reparar em vez de substituir, migrar para fora quando as licenças apertam, e fazer backup antes de atualizar — o controlo devolve-se a quem o reivindica.
Sofia Almeida: Ficamos por aqui. Foi um prazer, Rafael. E a todos vocês, obrigados por nos ouvirem — até à próxima.
Rafael Costa: Até já. Boa noite.