0907 | Vetores, Bitcoins e Máquinas que Pensam

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Neste episódio: um ataque via tradução de embeddings, o roubo de milhares de BTC na Liquid, o regresso do Nitter ao ar, o fim do coletivo A/I, as ambições da OpenAI e o aviso do seu cientista-chefe, tudo isso e mais, num passeio pelas notícias da tecnologia.

Linha do tempo

  • 00:00:04 Abertura
  • 00:00:50 Segurança: embeddings expostos e o roubo na Liquid
  • 00:05:50 Nitter de volta ao ar, à sombra de cartas da X Corp.
  • 00:08:01 Fim do coletivo A/I após designação terrorista
  • 00:09:46 OpenAI: do estagiário automatizado ao pesquisador de 2028
  • 00:12:56 Engenharia mínima: Python em 1 kB e Mador em 855 bytes
  • 00:15:15 Copyleft contra SaaS e Anubis com prova-de-trabalho
  • 00:18:08 NetBSD 9.5 e o Asahi chega aos Macs M3
  • 00:20:51 Criatividade e o declínio da leitura
  • 00:23:53 Europa em órbita e um toque de humor
  • 00:26:04 Encerramento

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Transcript

Sofia Almeida: Boa noite, ouvintes, e bem-vindos a mais uma edição do podcast. Eu sou a Sofia Almeida.

Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. E hoje temos um episódio que, no fundo, é sobre confiança — confiança em chaves, em sistemas legais, em empresas que prometem prazos para inteligência artificial, e até confiança no nosso próprio software.

Sofia Almeida: Exatamente. E como sempre, vamos pegar nas discussões mais substanciais das últimas vinte e quatro horas, desfiá-las uma a uma, ver onde as pessoas concordam, onde divergem, e o que continua sem resposta. Começamos por duas histórias de segurança que parecem separadas mas que, no fundo, falam da mesma coisa: infraestrutura nova, ataques novos.

Rafael Costa: Pois. A primeira é académica mas com consequências muito práticas. Foi publicado no arXiv, o artigo 2505.12540, o que se descreve como a primeira tradução não supervisionada de embeddings entre espaços vetoriais. Ou seja, traduzir representações numéricas de um modelo para outro sem dados emparelhados, sem supervisionamento.

Sofia Almeida: E porque é que isso é assustador? Porque os embeddings estão por todo o lado hoje. Bases de dados vetoriais guardam tudo — documentos, imagens, perfis de utilizadores — e muitas vezes quem as opera assume que aquilo é opaco. São só vetores de números, ninguém consegue ler nada a partir dali.

Rafael Costa: Só que com esta tradução entre espaços, de repente já se consegue inferir atributos a partir dos vetores. Se consegues mapear um vetor de um espaço desconhecido para um espaço onde sabes interpretar, podes começar a adivinhar propriedades dos dados originais sem nunca os ter visto.

Sofia Almeida: E é aqui que a discussão se torna interessante, porque há duas leituras possíveis. Uma é a leitura de ataque: isto é uma técnica de exfiltração de informação a partir de infraestruturas que toda a gente considerava seguras por obscuridade. A outra é a leitura científica: se a tradução não supervisionada funciona, é um resultado verdadeiramente notável sobre a estrutura matemática dos espaços de embedding.

Rafael Costa: E这两 leituras não são incompatíveis. Aliás, é o padrão clássico em segurança: um avanço genuíno em representação abre uma porta nova. O que fica por responder é a parte da mitigação. O que é que uma empresa que opera uma base de dados vetorial faz a partir de segunda-feira? Encriptação dos vetores? Controlos de acesso mais apertados? Limitar o que se expõe a consultas? Ninguém tem ainda uma resposta madura.

Sofia Almeida: E há uma questão mais filosófica que vale a pena levantar. Durante anos, a resposta de muita gente na área de privacidade foi "embeddings contêm informação, portanto são dados pessoais". Houve quem fosse ridicularizado por dizer isso. Este trabalho dá-lhes razão de forma bastante concreta.

Rafael Costa: Completamente. E a questão em aberto — e esta é genuinamente em aberto — é quão generalizável é o método. Funciona entre pares de modelos específicos? Entre quais? Precisa de saber alguma coisa sobre o espaço de destino? O resumo não nos diz isso, e é exatamente o tipo de detalhe que separa "curioso trabalho académico" de "ameaça real".

Sofia Almeida: Passando do académico para o muito concreto: cerca de quatro mil bitcoins — aproximadamente trezentos e vinte milhões de dólares — retirados da carteira da Liquid Federation por atacantes, através de uma chave PAK associada ao SideSwap.

Rafael Costa: E a consequência imediata foi o congelamento da sidechain Liquid. Que, recordemos, é uma sidechain do Bitcoin desenhada precisamente para transfers interbancárias e para movimentos grandes e rápidos, com federations de funczionários que assinam em conjunto.

Sofia Almeida: O detalhe técnico que importa aqui é a chave PAK, a prova de chave de acesso do SideSwap. Não sabemos — pelo menos ainda não se sabe publicamente — como é que os atacantes obtiveram essa chave. Foi comprometimento de um membro da federação? Foi um erro no design do protocolo que permitiu usar a chave de forma que não estava prevista? Foi engenharia social?

Rafael Costa: E é essa incerteza que alimenta a discussão mais acesa, porque a segurança da Liquid assenta no pressuposto de que um conjunto limitado de entidades guarda chaves de forma competente. Quando quatro mil BTC saem por uma única via, a pergunta inevitável é: quantas destas chaves existem, quem as tem, e com que processos?

Sofia Almeida: E nota que há aqui um eco da história anterior. Na Liquid, a chave não foi "quebrada" matematicamente — foi a camada operacional e humana em torno da chave que falhou, presumivelmente. Tal como com os embeddings, o ataque não é contra a criptografia em si, é contra as suposições que fazemos sobre como a criptografia é usada.

Rafael Costa: O que ainda não sabemos, e isto é importante sublinhar, é o que acontece a seguir. Houve alguma recuperação? A federação vai reconstituir-se com novas chaves? Vai haver fork da sidechain para reverter o roubo? Quem é que ficou prejudicado — os utilizadores que tinham ativos na Liquid, ou a federação no seu conjunto?

Sofia Almeida: Sim, e esta é a parte que mais irrita as pessoas nas discussões: o silêncio. Em incidentes deste tipo, a resposta rápida e transparente vale mais do que qualquer garantia técnica. Enquanto não houver um relatório do incidente, toda a gente está a especular.

Rafael Costa: E especular sobre trezentos e vinte milhões de dólares é um desportivo nacional, digamos assim.

Sofia Almeida: Combinado. Vamos sair do mundo da segurança financeira para outro tipo de pressão — pressão legal. O Nitter voltou ao ar.

Rafael Costa: Para quem não conhece, o Nitter é uma frontend alternativa ao Twitter, hoje X, sob licença AGPLv3, que permite ler a rede sem conta, sem anúncios, sem o interface oficial. O XCancel é uma instância relacionada. E o serviço tinha sido alvo de exigências de remoção da X Corp., incluindo cartas de cease-and-desist datadas de vinte e quatro de agosto.

Sofia Almeida: A novidade é dupla. Primeiro, o serviço retomou após aconselhamento legal — ou seja, alguém com formação em direito olhou para a situação e achou que havia um caminho para continuar. Segundo, o README do projeto confirma-o explicitamente: o projeto continua, seguindo o conselho legal recebido.

Rafael Costa: E aqui a discussão é rica, porque coloca uma pergunta quase constitucional para o software livre: podem frontends alternativos, construídos sobre interfaces não oficiais, sobreviver a pressão corporativa sistemática?

Sofia Almeida: Há quem diga que não — que a posição legal de uma frontend que depende de acessar dados de outra empresa é intrinsecamente frágil, e que mais cedo ou mais tarde a X Corp. escala a ofensiva até ganhar. Há quem diga que sim, precisamente porque o README voltou ao ar depois de advogados terem visto o caso — o que sugere que a posição jurídica não é indefensável.

Rafael Costa: E há uma terceira posição, mais cética, que é: a X Corp. pode simplesmente não valer a pena perseguir. O custo de litigar contra projetos pequenos, distribuídos, sem ativos nos mesmos países, pode ser maior do que o benefício de os fechar.

Sofia Almeida: E o precedente importa para todo o ecossistema. Se o Nitter sobrevive, isso diz aos desenvolvedores de frontends alternativas — para Reddit, para YouTube, para o que for — que há espaço. Se for esmagado, a lição é que qualquer projeto que toque numa grande plataforma está a viver em tempo emprestado.

Rafael Costa: E ligando isto à história seguinte, há uma versão muito mais dramática do mesmo problema. O coletivo Autistici/Inventati, conhecido como A/I, encerrou após vinte e cinco anos de atividade. E a razão não foi uma cease-and-desist — foi ser designado organização terrorista global.

Sofia Almeida: Vinte e cinco anos. Isto é infraestrutura de ativistas, de movimentos sociais, de gente que precisava de email, alojamento, comunicação segura fora dos grandes provedores. E terminou não por falta de utilizadores nem por decisão própria de se reinventar, mas por uma designação que, do exterior, parece desproporcional para um coletivo que prestava serviços de internet.

Rafael Costa: E a designação de terrorismo é de outra natureza jurídica. Não é uma disputa civil entre uma empresa e um projeto. É uma categoria que congela relações bancárias, afasta fornecedores, assusta voluntários. Mesmo que o coletivo quisesse lutar, o custo humano de continuar tornou-se proibitivo.

Sofia Almeida: E há uma questão genuinamente desconhecida e desconfortável: o que acontece aos dados dos utilizadores? Vinte e cinco anos de contas, de listas de discussão, de ficheiros. Quem custodia isso agora? Há um plano de migração? Existe sequer uma forma legal de devolver dados a pessoas que já não confiam em nenhuma instituição?

Rafael Costa: E a comparação com o Nitter é iluminadora, apesar de as escalas serem diferentes. O Nitter enfrenta uma empresa com advogados. O A/I enfrentou uma designação estatal. A primeira pode ser combatida com contratos e jurisdição. A segunda é muito mais difícil de contestar.

Sofia Almeida: Pois. E da vigilância e pressão legal passamos para outra conversa sobre pressão — mas desta vez autoimposta. A OpenAI anunciou que atingiu o objetivo do "estagiário de pesquisa automatizado" em setembro de dois mil e vinte e seis, e que mira um investigador de IA automatizado até março de dois mil e vinte e oito.

Rafael Costa: E o cientista-chefe, Jakub Pachocki, no mesmo tom, alertou que a ascensão rápida da inteligência das máquinas exige coordenação internacional e salvaguardas mais fortes.

Sofia Almeida: Vamos desfazer isto, porque há aqui várias camadas. Primeira camada: a alegação de que o estagiário foi atingido. O que conta exatamente como estagiário automatizado? Alguém que faz tarefas de pesquisa sob supervisão? Que produz código? Que escreve rascunhos de artigos? O critério é vago, e vago de forma conveniente, porque é impossível verificar de fora.

Rafael Costa: E há quem veja nisto marketing disfarçado de marco técnico. As datas são agressivas — março de dois mil e vinte e oito é dentro de pouco mais de um ano — e anunciar prazos destes cria uma narrativa de inevitabilidade que serve interesses comerciais.

Sofia Almeida: Mas há quem veja outra coisa: a Pachocki, o mesmo executivo que tem interesse em vender a visão, está simultaneamente a pedir coordenação internacional. Isso é, no mínimo, uma admissão de que há riscos sistémicos reais. Não é uma posição que se espere de quem acha que a tecnologia é inofensiva.

Rafael Costa: E a tensão entre as duas mensagens é o que mais irrita as pessoas na discussão. Não se pode, em boa consciência, dizer simultaneamente "temos uma máquina que faz ciência" e "precisamos de tratados internacionais para nos controlar a nós próprios" sem que o ouvinte se pergunte qual das duas frases é a verdadeira.

Sofia Almeida: E há um comentário paralelo que encaixa aqui como uma luva. O Bryan Cantrill escreveu sobre posts escritos por LLM no LinkedIn, dizendo que são facilmente detetáveis como slop, e que minam a autenticidade de quem os publica.

Rafael Costa: E esta é uma boa ponte, porque toca na questão da verificação. Se os modelos escrevem como máquinas e as máquinas se detetam, o que é que isso diz sobre os prazos da OpenAI? A capacidade de gerar texto fluente não é a mesma coisa que a capacidade de fazer investigação. E a confusão entre as duas é exatamente o que alimenta tanto o hype como o cepticismo.

Sofia Almeida: Exato. E fica a pergunta em aberto: quando a OpenAI disser, em dois mil e vinte e oito, "atingimos o investigador automatizado", quem vai verificar? Qual é o benchmark? Qual é a auditoria externa? Nada disso está definido.

Rafael Costa: E há uma ironia adicional que alguém levantou, e que me parece justa: ao mesmo tempo que a indústria promete investigadores automáticos, o texto gerado por esses mesmos modelos é reconhecido como slop. Há um desacordo não resolvido sobre se a qualidade dos outputs destes sistemas é revolucionária ou medíocre, e as duas impressões coexistem.

Sofia Almeida: Vamos mudar de chave completamente. Porque há uma parte das discussões que é pura celebração da engenharia minimalista, e esta semana teve dois exemplos fantásticos.

Rafael Costa: O primeiro é do Austin Henley, que escreveu um subconjunto de interpretador Python em mil e vinte e quatro bytes de C. Um kilobyte. E sem macros, que seria a forma fácil de economizar bytes.

Sofia Almeida: E o subconjunto não é trivial: suporta def, if, for, print, e a indentação significativa do Python. Ou seja, tem de fazer parsing com sensibilidade a espaços em branco, que é uma das partes mais irritantes do Python. Tudo isso num kilobyte.

Rafael Costa: O segundo é o Mador, um Proxy de JavaScript com cerca de oitenta linhas que torna o DOM reativo, com seletores CSS e rastreamento de dependências. Tudo isto em oitocentos e cinquenta e cinco bytes minificados, zero dependências.

Sofia Almeida: E a discussão aqui divide-se em dois campos. Há quem veja nestes projetos exercícios de arte — impressionantes, mas sem valor prático para produção. E há quem veja algo mais profundo: demonstrações de que as abstrações que usamos todos os dias têm um núcleo conceptual pequeno, e que a complexidade que sentimos é frequentemente acidental, não essencial.

Rafael Costa: Eu diria que os dois campos têm razão, mas o segundo tem um argumento mais forte do que parece. O Mador usa Proxy de JavaScript e seletores CSS e rastreamento de dependências — isto são ideias que frameworks como Vue ou React implementam em megabytes. Ver que o mecanismo essencial cabe em oitocentos e cinquenta e cinco bytes é uma crítica implícita à complexidade do ecossistema moderno.

Sofia Almeida: E há sempre a objecção clássica: sim, mas falta tudo. Não há tratamento de erros robusto, não há acessibilidade, não há otimizações. O que é verdade, mas não é o ponto. O ponto é didático: mostrar qual é o osso da coisa.

Rafael Costa: E há um ponto adicional sobre o Python num kilobyte: sem macros. Isso significa que Henley não usou os truques de pré-processador que normalmente tornam estes desafios possíveis. É C puro, com parsing real, a fazer coisas reais.

Sofia Almeida: E liga bem à história seguinte, porque é a mesma tensão entre o essencial e o acessório — mas agora em questões de licenciamento e de defesa de projetos. Henri Bergius anunciou que mudou a sua licença padrão de MIT para EUPL-1.2, uma licença copyleft forte que fecha a brecha SaaS.

Rafael Costa: Explicando para quem não vive isto: o problema do MIT e de licenças permissivas é que qualquer empresa pode pegar no teu código, incorporá-lo num serviço cloud, e nunca contribuir nada de volta. A famosa brecha SaaS — o software é livre, o serviço é fechado. O EUPL, como copyleft forte, tenta fechar essa porta.

Sofia Almeida: E há aqui um debate genuíno entre posições que ambas se dizem pró-software-livre. Uma diz: licenças permissivas maximizam a adoção, e adoção é o que importa. A outra, que é a posição do Bergius neste caso, diz: adoção sem reciprocidade é extração, e a única defesa é o copyleft.

Rafael Costa: E a objeção clássica ao copyleft forte em contexto SaaS é que muitas vezes também trava a adoção corporativa — empresas jurídicas fogem de licenças que parecem exigir a abertura de todo o stack. O EUPL tem compatibilidades específicas, mas a percepção na indústria ainda é de risco.

Sofia Almeida: E na mesma linha, mas por outra via: o Anubis lançou verificações de prova de trabalho baseadas em WebAssembly, depois de um ano de trabalho e centenas de commits, incluindo uma reescrita parcial em Rust.

Rafael Costa: Para contextualizar, o Anubis é a ferramenta que vai colocando um desafio de prova de trabalho no browser antes de deixar o utilizador entrar numa página. Foi criado originalmente para travar bots que faziam scraping massivo — os tais bots que treinarão os modelos de IA da história anterior.

Sofia Almeida: E há uma ironia deliciosa aqui que a discussão não deixou passar. Estamos a usar prova de trabalho — a mesma técnica conceptual que o Bitcoin usa para proteger a rede — para proteger páginas web de bots. E ao mesmo tempo, na história da Liquid, bitcoins foram roubados. O mecanismo que protege uma coisa é usado contra outra.

Rafael Costa: Mas o ponto sério é: defender software livre de exploração, e defender a web de bots, exige esforço contínuo. Não é um patch, é um compromisso de um ano, centenas de commits, reescrita parcial em Rust. E mesmo assim, a guerra não está ganha — os bots vão adaptar-se.

Sofia Almeida: E fica a pergunta: onde está o custo deste esforço? É dos voluntários. O Bergius muda a licença dele. O Anubis é mantido por pessoas que dedicam tempo. Enquanto isso, os que extraem valor — as empresas de cloud, os operadores de bots — não pagam nada por causarem o problema.

Rafael Costa: Pois. E a mesma dinâmica de projetos que continuam a evoluir aparece nas próximas duas histórias. NetBSD lançou a versão 9.5, que é a última da série 9.x. O ramo netbsd-9 está em fim de vida, e os utilizadores são convidados a migrar para a 11.0, a 11.1, ou para a futura 10.2.

Sofia Almeida: E para dar contexto ao NetBSD — porque é um projeto que muita gente nova não conhece — há um histórico notável: foi usado pela NASA para TCP em satélites, pela equipa KAME para IPv6 e IPsec, e esteve envolvido no recorde de velocidade de Internet da SUNET no Internet2.

Rafael Costa: E isto é relevante para a discussão, porque há sempre quem pergunte: para que serve um projeto destes, em que país há servidores NetBSD? E a resposta é: em sítios onde a portabilidade e a limpeza do código importam mais do que as últimas funcionalidades. Um kernel que corre num satélite tem de ser bem escrito.

Sofia Almeida: O lado menos glamouroso é a gestão do ciclo de vida. Fim de vida de uma série significa que usuários ficam sem correções de segurança. E a mensagem da equipa é clara: migrem. O que é um desafio real, porque migrar sistemas em produção nunca é trivial.

Rafael Costa: E há uma leitura mais melancólica, de quem vê a série 9.x fechar como o fim de uma era, e a leitura mais pragmática, que é: o software que não migra morre. As duas coexistem.

Sofia Almeida: E na linha dos sistemas que lidam com hardware novo, o Asahi Linux anunciou suporte para Macs da série M3, mas em modo Expert, e com várias lacunas importantes: sono, HDMI, e a stack de GPU/DCP ainda não funcionam. E o Studio M3 Ultra nem é suportado.

Rafael Costa: O "modo Expert" é um detalhe que importa, porque significa que não é para o utilizador comum. É para pessoas que aceitam coisas partidas, que podem lidar com um portátil que não dorme. E ainda assim, é um marco: M3 é hardware recente, e o Asahi conseguiu arrancar Linux nele.

Sofia Almeida: O que fica por responder é quando é que M3 atinge o nível dos M1 e M2, que já são usáveis no dia a dia. A lacuna da GPU/DCP é a mais séria, porque sem aceleração gráfica a experiência é fundamentalmente degradada.

Rafael Costa: E há um paralelo que alguns fizeram entre o Asahi e o NetBSD: ambos são projetos de engenharia profunda, sustentados por poucas pessoas, contra a maré de hardware proprietário e fechado. Ambos sobrevivem por rigor técnico e por uma comunidade que valoriza isso.

Sofia Almeida: Pois. E vamos para a parte mais humana do episódio, porque temos uma coluna do DUB, escrita por uma candidata a PhD, que argumenta algo contraintuitivo: que a criatividade existe dentro das restrições, não apesar delas. Ela chama a isto o "modelo do estojo de lápis".

Rafael Costa: Desembalando a metáfora: um estojo de lápis é um conjunto limitado de instrumentos. Dentro dele, a criatividade floresce precisamente porque há limites — escolhas, restrições, formas. Sem caixa, sem lápis, sem restrições, não há criatividade — há apenas ruído.

Sofia Almeida: E é uma tese que dialoga diretamente com a próxima leitura. Ed West analisou "The New Dark Ages", de James Marriott, que culpa os telemóveis e a televisão pelo declínio da literacia e da leitura por prazer.

Rafael Costa: E as duas leituras parecem contraditórias mas não são necessariamente. A tese do estojo de lápis diz que restrições estimulam criatividade. A tese do declínio da leitura diz que o excesso de estímulo — a distração infinita dos ecrãs — destrói a capacidade de concentração longa que a leitura exige.

Sofia Almeida: Ou seja, a tecnologia tanto restringe como molda a criatividade. A pergunta não é "restrições boas ou más?", é "quais restrições?". A restrição de um papel em branco, de um prazo, de uma forma fixa, pode ser fértil. A restrição de um scroll infinito desenhado para nunca terminar é de outra natureza.

Rafael Costa: E há um argumento adicional que merece ser explicitado. A leitura por prazer não é apenas uma atividade de lazer — é um treino de atenção sustentada. Se a literacia está em declínio, o custo não é só cultural, é cognitivo. E essa é a parte que mais preocupa quem lê o Marriott.

Sofia Almeida: E há um exemplo encantador de restrição deliberada no outro extremo do espectro. O website do Rob Weychert está fechado aos domingos. Uma restrição autoimposta, para promover o que ele chama de "Bildschirmfrei" — o estar sem ecrã.

Rafael Costa: E há outros casos comparáveis. O babypark.nl nos Países Baixos, e o partido político SGP, também neerlandês, fecham aos domingos. E a B&H Photo, nos Estados Unidos, encerra ao sábado por razões de Sabat.

Sofia Almeida: E isto é fascinante, porque são casos de empresas e projetos que dizem: não estamos disponíveis sempre, e isso é uma vantagem, não uma falha. É a tese do estojo de lápis aplicada ao comércio e à web — a restrição cria espaço para outra coisa.

Rafael Costa: E contrasta de forma divertida com o mundo que descrevemos na primeira metade do episódio. Bots a fazer scraping sem parar, plataformas que nunca fecham, modelos que prometem trabalhar sem descanso. Contra isso, uma página web que diz "estou fechada ao domingo" é quase um manifesto.

Sofia Almeida: Combinado. E antes de fechar, uma história que merece celebração genuína. A Isar Aerospace atingiu a órbita já no segundo voo do foguetão Spectrum, a partir de Andøya, na Noruega, e colocou satélites em órbita. Isto é a primeira missão orbital comercial da Europa.

Rafael Costa: E aqui há que contextualizar: atingir órbita no segundo voo é excepcional. A maioria das empresas de lançamento falha os primeiros voos, por vezes os primeiros vários. Conseguir orbitar e libertar payloads no segundo é um sinal de engenharia madura.

Sofia Almeida: E o significado estratégico é grande. Até agora, o acesso ao espaço na Europa dependia em grande parte do Vega e do Ariane, com ciclos longos e custos elevados. Ter um lançador comercial europeu novo, com cadência potencialmente maior, muda o quadro.

Rafael Costa: A incógnita, e foi o que toda a gente apontou, é a cadência futura. Um voo de sucesso prova o design; não prova a capacidade de produzir e lançar repetidamente. É a diferença entre ter um foguetão e ter um negócio de foguetões.

Sofia Almeida: E como o episódio falou de muitas coisas sérias, fechamos com uma piada que circula: um utilizador queixou-se de que o seu QBittorrent "escapou da sandbox", descarregou media de propriedade corporativa, e o Jellyfin o adicionou às bibliotecas automaticamente.

Rafael Costa: E é engraçado precisamente porque é o pesadelo de qualquer pessoa que automatizou o próprio servidor de media: um dia o sistema funciona demasiado bem e encontra coisas que ninguém lhe pediu para encontrar.

Sofia Almeida: E tem um eco, que eu não consigo deixar de notar, das nossas histórias do início. Sistemas que fazem coisas que ninguém lhes pediu explicitamente. Chaves que abrem portas que deviam estar fechadas. Automação que se passa da supervisão.

Rafael Costa: E é por isso que fechamos como abrimos: a confiança é a matéria-prima de tudo isto. Confiança em chaves, em advogados, em modelos de IA, em foguetões, em clientes de torrent. E o que aprendemos hoje é que essa confiança tem de ser ganha repetidamente, nunca assumida.

Sofia Almeida: Obrigado por nos ouvirem. Até à próxima.

Rafael Costa: Até já.