0811 | Zuckerberg contra IA fechada, falhas de validação e guerra ao anonimato

||Download

Show notes

Neste episódio, percorremos os debates mais quentes do Hacker News. Começamos pelo manifesto de Mark Zuckerberg contra rivais 'fechados' e a favor do retorno da Meta aos modelos abertos de IA, que gerou críticas sobre contradições e comparações com outros gigantes do setor. Depois, uma grave falha de segurança no tl;dv expôs mais de 180 mil reuniões gravadas com IA, incluindo sessões governamentais de 23 países. Abordamos também a investigação sobre a 'guerra do anonimato' vinda do Reino Unido p

Linha do tempo

  • 00:00:00 Abertura
  • 00:00:44 Zuckerberg ataca rivais 'fechados' e defende IA aberta
  • 00:02:36 Tl;dv: 180 mil reuniões expostas sem isolamento
  • 00:04:22 A guerra do Reino Unido contra o anonimato chega aos EUA
  • 00:06:16 Lei de Illinois coloca Linux na verificação de idade
  • 00:07:54 Terremoto de magnitude 7,4 na Colômbia
  • 00:09:43 Melhor linguagem para agentes de código
  • 00:11:47 Cortes de conhecimento do Claude e do GPT
  • 00:13:44 Kinney Drugs recolhe assistente de IA após queixas
  • 00:15:55 Saúde vascular na meia-idade e demência
  • 00:17:36 Explorando o System Management Mode
  • 00:19:12 Por que linguagens de programação falham
  • 00:21:05 Muse Glimmer: modelo local sempre ativo
  • 00:22:55 Humanizar as saídas dos LLMs é um erro
  • 00:25:14 Ação coletiva na Holanda contra a Sony

Links relacionados

Este episódio é produzido pela Bri. O Bri usa tecnologia avançada de IA para transformar os feeds importantes para você em podcasts feitos para ouvir. Fale conosco em hi@bri.so.

Transcript

Sofia Almeida: Bem-vindos ao Hacker News diário, o seu podcast Bri. Eu sou a Sofia Almeida.

Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. Hoje há muito por onde pegar, desde Mark Zuckerberg a atacar rivais de IA "fechados" até um terramoto de magnitude 7,4 na Colômbia. E não ficamos por aqui.

Sofia Almeida: Também vamos falar sobre a guerra do Reino Unido contra o anonimato a chegar aos Estados Unidos, uma nova lei de segurança nas redes sociais no Illinois, e um debate sobre qual a melhor linguagem de programação para agentes de código. E claro, há novidades da Meta no mundo da IA.

Rafael Costa: Vamos a isso. Preparem-se para um episódio cheio de tecnologia, debates e notícias quentes.

Sofia Almeida: A conversa no Hacker News começa com um ensaio de Mark Zuckerberg defendendo que a Meta volte aos modelos de inteligência artificial abertos — e atacando os concorrentes que mantêm os seus fechados. Um comentarista logo nota que essa versão não arquivada do texto não estava atrás de paywall, e outro brinca que o ensaio é um pouco ‘Guerra e Paz’ de tão longo.

Rafael Costa: Houve até discussão sobre o estilo. Um leitor reclamou dos muitos travessões no texto, mas alguém respondeu que não era nem de longe exagero, que não parecia ter sido escrito por um modelo de linguagem, e que os sinais ali eram hífens duplos, não travessões de verdade.

Sofia Almeida: A crítica mais séria veio de um comentarista que achou o manifesto contraditório. Ele gosta da abertura, sobre empoderar as pessoas colocando inteligência artificial na mão delas, mas rejeita a ideia de entregar todo o contexto pessoal para que agentes ‘trabalhem por nós vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana’.

Rafael Costa: Esse mesmo leitor diz que prefere agentes burros, que ele mesmo controla. A razão: só ele mantém a posse e os direitos exclusivos sobre o contexto pessoal em que baseia suas decisões. Alguém respondeu que não entendia a crítica, já que o modelo é aberto e pode ser hospedado e usado sem dar nada à Meta — embora admita que a empresa possa querer extrair dados de usuários, sem ver como isso aconteceria por esse produto específico.

Sofia Almeida: E claro, vieram as comparações. Um leitor perguntou se não seria o caso de ‘estou perdendo, então acho que devemos mudar as regras’. Outro lembrou que Sam Altman já defendeu desacelerar, e ainda houve quem citasse Elon Musk — há alguns anos ele pediu uma pausa de seis meses no treinamento de inteligência artificial. Outro comentarista contesta a premissa de fundo, dizendo que a OpenAI não está perdendo.

Sofia Almeida: Uma segunda história que agitou o Hacker News tem um título bem direto: ‘Cedo demais para validar — cento e oitenta e um mil, oitocentos e setenta e quatro reuniões deixadas completamente abertas’. O alvo é o tl;dv, uma plataforma de gravação de reuniões com inteligência artificial.

Rafael Costa: O serviço funciona assim: você instala um bot na sua chamada do Google Meet, do Zoom ou do Teams, e ele transcreve tudo e gera resumos com IA. A plataforma diz ter mais de dois milhões de usuários e é apoiada por investidores. O tipo de conteúdo que ela guarda vai de ligações de vendas a entrevistas de emprego, avaliações de desempenho e sessões de estratégia interna.

Sofia Almeida: O problema descrito é grave. Ao se cadastrar, o usuário recebe um token de acesso que permite consultar o banco de dados de reuniões — e essa base não tinha isolamento entre clientes. Na prática, qualquer usuário autenticado da plataforma conseguia ver as reuniões de todas as contas, de todas as empresas que usam o serviço.

Rafael Costa: Cada registro vazava o e-mail de quem criou a reunião e o link da sala — o identificador do Google Meet ou do Teams pelo qual era possível entrar. Mais assustador: reuniões marcadas como ao vivo, em gravação, podiam ser invadidas sem convite. Havia cerca de mil delas a qualquer momento.

Sofia Almeida: A escala contabilizada: quase cento e oitenta e dois mil registros de reuniões, mais de oitenta e quatro mil usuários únicos e trinta e cinco mil domínios de e-mail. Entre os vazados estavam reuniões governamentais de vinte e três países, todas em domínios oficiais do tipo ponto-gov — incluindo Brasil, Colômbia, Peru, Ucrânia, Estados Unidos, México e outros.

Sofia Almeida: Depois tem uma investigação publicada pela publicação Effort com um título provocativo: ‘A guerra do Reino Unido contra o anonimato chegou à América’. A tese é que cinco ONGs estrangeiras e suas afiliadas estão coordenando uma operação nos Estados Unidos para influenciar legisladores.

Rafael Costa: A estratégia unificada seria usar a retórica da ‘segurança infantil’ para defender leis de identidade digital que, na prática, impediriam adultos de usar a internet anonimamente. No Reino Unido, segundo o artigo, leis semelhantes já foram aprovadas e hoje fazem parte de um sistema que vigia e encarcera dissidentes políticos — e o anonimato online é descrito como uma contramedida eficaz contra o autoritarismo.

Sofia Almeida: A mesma rede estaria replicando o modelo nos Estados Unidos, tentando aprovar leis em vinte e um estados e no Congresso. Na discussão, um comentarista afirma que qualquer pessoa que invoque crianças para esse argumento está tentando nos fazer trocar liberdade por segurança — e que essas justificativas deveriam simplesmente ser ignoradas e descartadas.

Rafael Costa: Outro leitor apontou que essas campanhas sempre ignoram os controles parentais e vão direto para desanonimizar todo mundo. Um resumiu a retórica como ‘até o fundo’. Mas houve quem discordasse da ideia de simplesmente ignorar o argumento, dizendo que isso seria ceder à oposição.

Sofia Almeida: E veio uma resposta direta a quem trabalha com tecnologia: muita gente do setor ignora que muitos pais acham os controles parentais difíceis de usar e não confiam que os filhos não vão contorná-los. Se os pais se sentissem no controle da tecnologia, o argumento é que eles não pediriam regulação ao governo — e tratar esses pais como se estivessem errados é justamente o que os empurra para o outro lado.

Sofia Almeida: Pra fechar a rodada, a lei de Illinois chamada Children’s Social Media Safety Act. Ela foi sancionada pelo governador JB Pritzker e passou na Assembleia Geral sem um único voto contra — cinquenta e sete a zero no Senado e cento e treze a zero na Câmara.

Rafael Costa: As regras principais: nenhum feed algorítmico para menores por padrão, nenhuma notificação entre as dez da noite e as sete da manhã, e nenhum contato de adultos estranhos. Nas plataformas onde crianças podem ser alcançadas por desconhecidos — o exemplo citado é o Roblox — os menores ficam em feeds cronológicos, apenas de seguidores, e adultos estranhos não podem ver o perfil, mandar mensagem ou ver a localização de um menor.

Sofia Almeida: Mas o que chamou a atenção do Hacker News foi outro detalhe da lei. Ela cria uma categoria legal separada chamada ‘provedor de sistema operacional’, com prazo próprio até janeiro de 2028 e penalidades civis próprias. O provedor de sistema operacional teria que construir uma etapa de declaração de idade e entregar um sinal de faixa etária a qualquer aplicativo que o solicitasse.

Rafael Costa: E a definição inclui qualquer entidade comercial ou sem fins lucrativos que controle o sistema operacional. Sites de notícias, provedores de e-mail, empresas de banda larga e software escolar estão isentos por nome. Ou seja: a lei, na prática, pode colocar os sistemas operacionais — e o open source que os sustenta — no caminho da verificação de idade.

Sofia Almeida: Vamos começar por um sismo forte que abalou a Colômbia. O serviço geológico dos Estados Unidos registou um tremor de magnitude 7,4, a cerca de cinco quilómetros a sul de San José del Palmar. O que é curioso é que, na página oficial, não há muito mais do que isso — os detalhes úteis vieram mesmo da discussão no Hacker News.

Rafael Costa: E a discussão no Hacker News foi interessante por um motivo inesperado. Um comentador confessou ter lido o título como "cinco quilómetros a sul de San José"... a pensar na cidade da Califórnia. E aí outro utilizador lembrou que, no mundo, há dezenas de cidades chamadas San José. Fizeram até um inventário dos Estados Unidos: há pelo menos uma dessas cidades em quatro estados, incluindo dois no Novo México e um povoado minúsculo no Texas, com cerca de quinze habitantes.

Sofia Almeida: Uma confusão compreensível. E a discussão também se debruçou sobre a possível ligação a um sismo na Venezuela, registado mais cedo este ano. Um utilizador respondeu que eram lados opostos do continente — este aqui fica na costa do Pacífico. Mas outro contrapôs que isso, por si só, não prova que não estejam relacionados. A questão acabou sem resposta definitiva na thread.

Rafael Costa: Quanto aos impactos reais, um comentador citou o jornal nacional El Tiempo, que trazia vários artigos de destaque: mais de vinte mortos confirmados em Pereira, uma cidade de terceira linha com cerca de quinhentos mil habitantes, além de muitos feridos. Já em Bogotá, outro utilizador não chegou a sentir o tremor, mas relatou que aparentemente durou vários minutos. Uma cobertura caótica, mas resta saber como a zona mais próxima do epicentro vai reagir nas próximas horas.

Sofia Almeida: Mudando de assunto completamente, temos um debate interessante no Hacker News sobre qual é a melhor linguagem de programação para agentes de código, num artigo do Dan Luu. A premissa vem de um post muito citado, segundo o qual linguagens dinâmicas e mais concisas são mais eficientes em tokens para modelos de linguagem. Até o resumo de IA do Google reproduzia essa tese quando se procurava pelo custo de tokens entre linguagens dinâmicas e estáticas.

Rafael Costa: E os números dessa tese são chamativos. Uma diferença de 2,6 vezes entre C, a menos eficiente, e Clojure, a mais eficiente, com a linguagem J no topo, a uma média de setenta tokens contra cento e nove de Clojure. Mas o Luu critica logo a base do experimento: os problemas vêm do Rosetta Code e são triviais. E desempenho em tarefas triviais, simplesmente, não generaliza para trabalho real.

Sofia Almeida: Ele aponta ainda um defeito grave num segundo teste. Um dos exercícios executava um caminho que nem existia; um agente fez um atalho desse caminho para o seu próprio executável, e isso contaminou os testes seguintes. Ou seja, as falhas atribuídas a Rust na verdade aconteceram porque um agente em Go tinha sobrescrito aquele teste quebrado. O Luu até pré-registou os seus palpites com amigos: 95% de confiança de que a tese dinâmico versus estático não se sustentaria, e 98% de que a supremacia de linguagens "estranhas" como o J também não.

Rafael Costa: E no teste que ele próprio desenhou, os agentes receberam a especificação do formato de compressão zstd e a lista de correções, e tiveram de implementar um descodificador a partir daí. O resultado, no fim, serviu mais para mostrar como é fácil tirar conclusões erradas de avaliações mal desenhadas do que para coroar uma linguagem vencedora. Um lembrete de que, quando se fala de agentes de código, a metodologia importa tanto quanto a linguagem.

Sofia Almeida: A seguir, uma peça de investigação sobre modelos de inteligência artificial que virou tema de conversa no Hacker News. Um autor, num post da sua plataforma pessoal, tentou descobrir até que data os modelos mais avançados conhecem o mundo, para inferir como é que foram treinados. E ele usou um método engenhoso: testes de escolha múltipla com factos diários retirados da Wikipédia, analisando a curva de erros para ver em que ponto o modelo perde o sinal da sua base de dados.

Rafael Costa: É importante sublinhar que tudo isto são estimativas — e o próprio autor admite que parte da especulação pode estar errada, porque há muito pouco dado público de referência para confirmar. Ainda assim, quando calibrou o método com um modelo da OpenAI, o ponto de corte estimado bateu certo com o que a empresa publicou. E ele usa o ponto médio da curva, não o início nem o fim, o que é uma escolha metodológica honesta.

Sofia Almeida: A partir daí, as especulações mais interessantes: os modelos da Anthropic, a partir de uma certa versão, pareceriam ter vindo do mesmo treino, com o corte perto do fim de dezembro de 2025. A família de um dos modelos da OpenAI viria de um ponto de verificação separado, concluído por volta do fim de fevereiro de 2026. E há uma observação curiosa, sobre um modelo que parecia "prever o futuro" — mas que o autor explica como um artefacto de uma taxa de erro muito alta quando o raciocínio é feito com pouco esforço.

Rafael Costa: Ou seja, não é profecia nenhuma, é só ruído mal interpretado. E um dos modelos mais recentes da Anthropic é descrito como "um pouco incomum", à espera de mais dados. No fundo, o mais valioso aqui não é a conclusão exacta, mas o método: dá aos curiosos uma forma de olhar para estes sistemas e perguntar "o que é que eles sabem, e o que é que isso nos diz sobre como nasceram?".

Sofia Almeida: E para fechar, uma história com um lado humano e também com uma lição sobre IA. A cadeia de farmácias Kinney Drugs, do estado de Vermont, recuou no uso de um assistente telefónico por IA, o Burt, depois de centenas de reclamações de clientes. O assistente, baptizado em homenagem ao fundador da rede, tinha sido lançado em maio para tratar com pacientes de prescrições e reabastecimentos.

Rafael Costa: E o que correu mal foi grave. Os clientes relataram chamadas incoerentes, dosagens erradas e notificações de prescrição perdidas, além de preocupações com a exposição de informação pessoal de saúde através da plataforma. O presidente da empresa, John Marraffa, assumiu o erro de forma rara e honesta: disse que acertar na privacidade e na segurança não significa que acertaram na experiência, e que não acertaram — e assumem isso. Fez também questão de frisar que o sistema é totalmente compatível com a lei de privacidade de saúde dos EUA, que não é de código aberto e que não gera nem manipula dados.

Sofia Almeida: A decisão foi pragmática: as chamadas recebidas voltam ao antigo sistema de telefone por tom, e o Burt fica restrito a comunicações de saída, como textos de reabastecimento — e só com autorização explícita dos pacientes. No Hacker News, a reacção foi céptica mas compreensiva. Um utilizador lembrou que, onze dias antes, já havia uma publicação sobre esta mesma cadeia a adoptar IA por eficiência — e outro comentou, com ironia, que "durou mais de uma semana".

Rafael Costa: A discussão na thread acabou por girar em torno de três grandes temas: se o código aberto seria melhor ou pior neste contexto, como se regula este tipo de sistemas, e até que ponto a culpa é da tecnologia ou de como foi lançada. E a lição que fica talvez seja a mais simples de todas: em serviços onde estão em jogo saúde e dados pessoais, a confiança constrói-se devagar e perde-se depressa — e um assistente que erra numa dosagem não é um problema técnico, é um problema de alguém que confiou nele.

Sofia Almeida: Um estudo publicado na Neurology, discutido lá no Hacker News, volta a ligar a saúde do coração na meia-idade à saúde do cérebro décadas depois. Quem resume o trabalho é o usuário brandonb: estudos anteriores já mostraram que a saúde cardíaca aos 50 ajuda a prever a saúde cerebral aos 75, e agora este estudo quantifica esse benefício. Com zero fatores de risco cardiovascular, as pessoas tiveram cerca de 30 anos de sobrevivência sem demência; com os três fatores de risco medidos — pressão alta, diabetes e tabagismo — esse número cai para 17 anos e meio. A diferença é de 12 anos e meio livres de demência.

Rafael Costa: E outro comentarista, o Aurornis, cita a cifra como "até 12,6 anos adicionais sem demência", reforçando a mesma mensagem: cuidar do coração parece importar muito na última década de vida, com efeitos que se acumulam ao longo de décadas, mesmo com mudanças moderadas de dieta e estilo de vida.

Sofia Almeida: A discussão também criticou como o estudo definiu pressão alta. Um comentarista elogiou a definição usada — sistólica de 140 ou mais, diastólica de 90 ou mais, ou uso de medicação para pressão — e contestou leituras mais rígidas tipo 121 por 80, ou insistir em 100 por 65 como ótimo mesmo quando a pessoa reclama de tontura. E nos conselhos práticos, um usuário defende que caminhar 30 minutos em dias alternados já melhora dramaticamente a vida de quem é sedentário; e se não der para 30, começar com 15.

Sofia Almeida: Agora um mergulho técnico profundo num repositório do GitHub chamado de "uma instrução muito, muito, muito longa" — uma exploração do modo de gerenciamento de sistema do processador, o chamado SMM, aquele ambiente de execução ultraprivilegiado e invisível que roda em segundo plano em toda CPU x86.

Rafael Costa: E o truque se apoia numa regra peculiar desse modo: ele exige que todos os núcleos entrem ou saiam dele ao mesmo tempo. Quando uma thread entra no SMM, todos os outros núcleos são obrigados a entrar também. Então, para quebrar o modelo, basta um núcleo estar ocupado demais para perceber que deveria entrar.

Sofia Almeida: Na prática, o ataque usa uma instrução de máquina absurdamente longa: o núcleo um convida o núcleo zero para o SMM, entra, espera, desiste, faz o que precisa fazer dentro do modo e sai — enquanto o núcleo zero ainda está preso naquela instrução gigante. Nesse momento, o núcleo um está fora do SMM enquanto o núcleo zero está dentro, o que abre brecha para um ataque.

Rafael Costa: E o requisito prático é a parte difícil: a instrução precisa levar algo em torno de 4 bilhões de ciclos, mais de um segundo de tempo real, porque a maioria das instruções numa CPU moderna é rapidíssima — o exemplo dado é um add simples, de um ciclo só. O repositório chega a documentar o que chama de "o timeout de um segundo": o código de firmware que coordena a entrada de todos os núcleos no modo, esperando dentro de uma janela de tempo.

Sofia Almeida: De repente, uma discussão sobre por que linguagens de programação sobem e caem, a partir de um artigo de um blog chamado bytecode.news, que responde a uma série do Linux Professional Institute. A série original classifica algumas linguagens como imortais "por enquanto" — C, C++ e JavaScript; Java talvez; COBOL, FORTRAN, BASIC e Perl seriam vidas respeitáveis aposentadas; Pascal, Objective-C, PL/I, Ada e Tcl, falsos começos; e Ruby "na bolha".

Rafael Costa: E o ponto central vem da citação de Simon Peyton Jones: a adoção de uma linguagem está muito fracamente conectada a seus méritos técnicos — são fatores sociais e econômicos que decidem. O artigo desenvolve a ideia de que programação é vocação, arte e trabalho ao mesmo tempo; uma linguagem que dificulta qualquer um desses três sobrevive exatamente até o dia em que pode ser substituída. "Doenças diferentes, uma patologia."

Sofia Almeida: O autor dá exemplos: o Pascal padrão falhou como trabalho porque não tinha nem um tipo de string utilizável; Tcl não carregava programas além de certo peso; Ada e PL/I foram linguagens de mandato, escolhidas para programadores em vez de por eles; o mercado de trabalho do Perl migrou para o Python; e há um comentário afiado sobre Haskell, que "famosamente se propôs a evitar o sucesso a todo custo, objetivo que alcançou".

Rafael Costa: E alguns sobrevivem por razões práticas: o JavaScript falha como arte para muita gente, mas segue como linguagem principal no navegador; o COBOL continua porque substituí-lo é difícil e caro — embora o artigo note que algumas empresas estão tentando justamente resolver isso. Se conseguirem, talvez a história do COBOL mude.

Sofia Almeida: E fechando com IA aberta: o Muse Glimmer, da Meta Superintelligence Labs, um modelo agêntico aberto de 30 bilhões de parâmetros, desenhado para fluxos de trabalho locais "sempre ativos" em hardware de consumo. Segundo o anúncio, os pesos foram liberados sob licença Apache 2.0 no Hugging Face, com documentação para desenvolvedores. O ponto é o tamanho: pequeno o suficiente para rodar num Mac ou PC com uma única GPU de consumo.

Rafael Costa: E isso habilita agentes locais, chamada de funções, codificação local e avaliação de modelo como juiz. As integrações otimizadas com llama.cpp, MLX e ExecuTorch devem chegar nos próximos dias.

Sofia Almeida: O treinamento combinou destilação sobre as saídas de um modelo maior, o Muse Spark, com dados de contexto mais longo e ricos em tarefas agênticas, e depois fine-tuning supervisionado e aprendizado por reforço em raciocínio, codificação e tarefas de agente. Nas avaliações, o modelo se sai forte em conclusão de tarefas agênticas de ponta a ponta — em benchmarks como DeepSearch QA, SWE-Bench e outros — em uso confiável de ferramentas, raciocínio multi-etapa, recuperação de falhas, e entrada de texto e imagens via um encoder de percepção.

Rafael Costa: Ele foi comparado com modelos de porte parecido, o Gemma4-31B e o Qwen3.6-27B, com desempenho forte para a classe de tamanho. E a comunidade recebeu bem: comentaristas elogiaram os novos lançamentos de pesos abertos da Meta, chamando a demonstração de boa. Um modelo aberto e local, pensado para rodar sempre no seu hardware — o tipo de coisa que aproxima agentes de IA do dia a dia de quem não quer depender de servidores na nuvem.

Sofia Almeida: Começamos por um ensaio que tem circulado com força nos círculos de inteligência artificial, intitulado, em tom provocador, "Humanizar as saídas dos modelos de linguagem é um erro". O autor, Kuber Mehta, argumenta que todo esse esforço para fazer as respostas dos modelos parecerem mais humanas está atacando o problema errado.

Rafael Costa: E ele aponta o dedo a um sinal cultural muito concreto. Diz que o maior indício dessa mudança está em plataformas como o X e o Hacker News, e em repositórios virais no GitHub. O exemplo é delicioso: pedidos de instruções tipo o famoso "tenho TDAH" nos avisos dos modelos, ou ficheiros de instruções a exigir que as respostas saiam em inglês técnico simplificado, uma norma criada para manuais de manutenção.

Sofia Almeida: E o apelo é óbvio, não é? Ninguém gosta da verborreia e das esquisitices dos modelos. Mas o argumento do autor é mais fino do que isso. Ele diz que essas instruções não são uma fase que acontece depois de o modelo terminar o trabalho. Elas tornam-se parte do próprio trabalho — o processo de limar a saída passa a ser um objetivo em si.

Rafael Costa: E há comentadores a levar isso adiante. Um deles compara ler grandes volumes de texto gerado por modelo a literatura floreada, daquela que é preciso reler sem reter nada. Depois de qualquer resposta longa, pede ao agente que volte atrás e comprima a linguagem do modelo à luz dos objetivos reais da tarefa, eliminando expressões vagas. E há um detalhe engraçado na resposta dele: diz que precisa dessa tradução intermédia para si próprio, mesmo tendo de guardar a versão bruta para os agentes usarem no futuro.

Sofia Almeida: E não falta quem veja conspiração nisto. Um comentador compara o efeito a ler o clássico "Orientalism", de Edward Said, e sugere, em tom de brincadeira, que é uma estratégia de aprisionamento ao fornecedor. Ou seja, os melhores resultados viriam de agentes da mesma tribo, e os outros tropeçariam na montanha de metáforas idiomáticas. Outro comentador concorda: diz que há mesmo um incentivo anticompetitivo, e que o enviesamento dos modelos a favor de si próprios é o mecanismo para isso.

Sofia Almeida: Mudando de assunto, e passando do software para uma batalha legal: há uma ação coletiva na Holanda contra a Sony por causa dos preços dos jogos digitais de PlayStation. O processo, conduzido pela fundação de consumidores Stichting Massaschade & Consument, usa o nome "Fair PlayStation actie", e a alegação é direta: quem tem uma PlayStation paga indevidamente uma espécie de "imposto Sony" em todos os jogos digitais.

Rafael Costa: E o grupo não está só a pedir preços justos. Quer também indenização, e promete levar o caso a tribunal em nome dos participantes. O modelo é interessante para o consumidor: se ganhar, há dinheiro a receber, com parte a ir para custos; se não houver resultado, quem está no processo não paga nada.

Sofia Almeida: A página ainda apanha o balanço de outra notícia — a Sony a abandonar os jogos físicos de PlayStation. E na discussão há um debate sobre o próprio argumento do monopólio. Um comentador diz que não percebe a acusação, porque não há exclusividade de jogos. Mas outro contra-ataca usando a Nintendo como exemplo: dá para comprar jogos digitais de Switch na Walmart ou na Amazon, muitas vezes cerca de dez por cento mais baratos do que na loja oficial da Nintendo. E questiona: se a Sony voltasse a vender códigos digitais através de terceiros, o caso perderia a força? Ou a questão passaria a ser outra?

Rafael Costa: E há quem recorde que isto não é novo — já existem ações coletivas contra a Sony nos Estados Unidos e no Reino Unido, precisamente por usar a sua posição dominante para cobrar preços altos. Um comentador acrescenta um ponto que muda o jogo: mesmo que a Sony revertesse o rumo imediatamente, já teria causado dano aos consumidores durante esse período. E ainda há quem defenda um "direito de desbloqueio" — uma lei que impedisse a Sony de bloquear sistemas operativos alternativos nas suas consolas. Seja como for, o caso holandês junta-se a uma pressão legal que só cresce.

Sofia Almeida: E é aqui que terminamos por hoje. Tivemos o Mark Zuckerberg atacando rivais de IA "fechados", um sismo de magnitude 7,4 na Colômbia, e uma rede de farmácias de Vermont recuando do assistente de voz com IA após centenas de reclamações.

Rafael Costa: Sem esquecer a briga sobre anonimato nos EUA, a lei de segurança nas redes sociais de Illinois, e uma ação coletiva holandesa contra a PlayStation — mais o Muse Glimmer, novo modelo aberto da Meta com 30 bilhões de parâmetros.

Sofia Almeida: Exatamente. Obrigado por nos acompanhar — até à próxima edição!