
0808 | Empregos nos EUA, custos de IA, RAM e violação de dados na Framework
Show notes
Neste episódio, os apresentadores percorrem as histórias que agitaram o Hacker News e o mundo da tecnologia: a reversão no mercado de trabalho americano, com perda de 23 mil empregos em julho e salários corroídos pela inflação; o playbook da Databricks para controlar os custos exponenciais do coding agêntico com IA; a venda de toda a capacidade de memória de 2027 para empresas de IA e a disparada de preços; e o vazamento de dados da Framework via um zero-day do Metabase. Também entram em pauta a
Linha do tempo
- 00:00:00 Abertura
- 00:00:44 Economia dos EUA perde 23 mil empregos em julho
- 00:03:26 Playbook da Databricks para custos de coding com IA
- 00:05:39 Capacidade de memória de 2027 já vendida
- 00:07:59 Vazamento da Framework via zero-day do Metabase
- 00:10:28 Trabalhadores de tecnologia perdendo fé na carreira
- 00:12:21 Ex-chefe da NSA: controladores de água fora da internet
- 00:14:16 DeepSeek V4 Flash e os resultados no ARC
- 00:16:13 Oracle bane código gerado por IA do OpenJDK
- 00:18:04 Um ano lutando contra scrapers
- 00:20:32 EUA pagam RWE para parar eólica offshore
- 00:22:38 DOE lança a Iniciativa Genesis de Modelos Abertos
- 00:24:41 Estudo sugere que a vida na Terra surgiu duas vezes
- 00:27:04 OpenAI e as capacidades cibernéticas críticas
- 00:29:20 Rejeição na App Store: Dark Hours
- 00:31:17 Postgres 300x mais rápido e o debate da AGPL
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Este episódio é produzido pela Bri. O Bri usa tecnologia avançada de IA para transformar os feeds importantes para você em podcasts feitos para ouvir. Fale conosco em hi@bri.so.
Transcript
Sofia Almeida: Bem-vindos de volta ao Hacker News diário, o seu Bri. Eu sou a Sofia Almeida.
Rafael Costa: E eu sou o Rafael Costa. Hoje temos uma pauta recheada, Sofia. O relatório de empregos de julho nos Estados Unidos, a Databricks a falar sobre os custos de código com IA em escala, e uma história de hardware que vem da IGN.
Sofia Almeida: Para não falar da violação de dados confirmada pela Framework, um ensaio sobre a tristeza que anda a tomar conta do setor de tecnologia, e até um sistema de água nos EUA. Há muito por onde pegar.
Rafael Costa: Exatamente. Fica connosco — vamos destrinchar tudo isto e muito mais, no episódio de hoje.
Sofia Almeida: Começando por um sinal de alerta no mercado de trabalho americano: a economia dos Estados Unidos perdeu 23 mil empregos em julho, uma reversão abrupta depois de quatro meses seguidos de crescimento positivo. Na prática, o mercado de trabalho não estabilizou como se esperava.
Rafael Costa: E a queda veio bem abaixo do que os economistas projetavam. A pesquisa da Dow Jones esperava 83 mil novas vagas, e o que veio foi justamente o oposto, uma perda líquida. A taxa de desemprego até recuou um pouco, para quatro vírgula um por cento, mas o dado de salários é o que mais chama atenção.
Sofia Almeida: Exato. Os ganhos médios por hora subiram apenas três vírgula dois por cento em um ano, segundo o relatório do BLS, que é o órgão que coleta essas estatísticas. Isso fica abaixo da inflação, que segue em três vírgula cinco por cento — bem acima da meta de dois por cento do Federal Reserve. Ou seja, no salário real, o trabalhador está perdendo poder de compra.
Rafael Costa: E o BLS também revisou para baixo os dois meses anteriores, cortando 103 mil empregos no total: maio perdeu 66 mil, ficando em 129 mil, e junho foi reduzido em 37 mil, para apenas 57 mil. Vale lembrar que junho já era um número fraco. Então o quadro é de desaceleração real, não só um mês ruim isolado.
Sofia Almeida: Quem puxou as quedas? Segundo o BLS, educação do governo local caiu 50 mil — muito provavelmente professores de férias de verão — e lazer e hospitalidade perderam 40 mil. Esse segundo número é o que os economistas mais acompanham de perto, porque uma queda forte em hotéis e restaurantes costuma ser um primeiro sinal de alerta de mudança no consumo. Varejo caiu 19 mil e finanças, 14 mil.
Rafael Costa: Do lado positivo, saúde e construção subiram 22 mil cada, e manufatura cresceu 5 mil. Mas tudo isso acontece num cenário já apertado: a guerra dos Estados Unidos com o Irã segue sem acordo para reabrir totalmente o Estreito de Ormuz, e a gasolina comum está em quatro dólares e quatro centavos o galão, alta de 36 por cento desde o fim de fevereiro. Isso pressiona ainda mais o orçamento das famílias.
Sofia Almeida: A economista-chefe da Navy Federal Credit Union, Heather Long, classificou esse relatório de forma preocupante, e dá para entender por quê: menos vagas, salários corroídos pela inflação e combustível em alta compõem uma combinação difícil para a economia americana.
Sofia Almeida: De custos de trabalho para custos de código: a Databricks publicou um texto contando como mantém o custo do coding agêntico sob controle — aquele em que a inteligência artificial ajuda a escrever código. É um custo que cresce de forma exponencial, e a empresa diz que, sem controle, pode ultrapassar a própria receita.
Rafael Costa: Mas vale destacar: a Databricks afirma que o coding agêntico melhorou mensuravelmente todas as métricas de velocidade, com ganhos de ordem de magnitude em algumas equipes. O problema não é a produtividade, é o custo que sobe rápido demais para ser sustentável.
Sofia Almeida: As técnicas que eles citam são bem práticas: migrar para modelos abertos e mais baratos, ter flexibilidade no harness, fazer roteamento dinâmico de requisições e tarefas, criar visibilidade com tripwires e orçamentos por desenvolvedor, reduzir o overhead de tokens e usar uma arquitetura de AI Gateway. E aqui tem um ponto importante – os números são direcionais, vieram de pesquisa informal com equipes de empresas como Stripe, Coinbase, Uber e Ramp, então são indicativos, não medições rígidas.
Rafael Costa: E na discussão houve um desentendimento clássico. Um comentarista, o bogota, disse que remover a plataforma da própria empresa economizou mais de dois milhões de dólares por ano e acusou o modelo de chargeback da Databricks de ser predatório. Mas o smt88 respondeu que ele entendeu mal o post: o texto é sobre como a Databricks reduziu os próprios custos internos, não sobre como adotar a Databricks reduz os custos de terceiros.
Sofia Almeida: E teve um comentário bem-humorado do platinumrad: brincou que admitir usar modelos que não foram treinados por OpenAI ou Anthropic poderia levar a uma convocação no Congresso dos Estados Unidos. No fundo, é uma provocação sobre o quanto a indústria gravita em torno dessas grandes provedoras.
Rafael Costa: O takeaway é este: o coding com IA melhora a produtividade, mas precisa ser tratado como uma conta que se gerencia ativamente — orçamento, visibilidade e roteamento inteligente — senão o custo escala mais rápido que o valor que ele gera.
Sofia Almeida: Saindo de software para hardware, e a notícia aqui não anima quem espera baixar o preço da memória: os três grandes fabricantes — Samsung, SK Hynix e Micron — teriam vendido toda a capacidade de fabricação de memória de 2027 para empresas de IA. A informação vem de um relato da Digitimes repercutido pela IGN.
Rafael Costa: E repare no cenário: todo o DRAM e HBM do ano já estaria vendido, sem mais oferta planejada. A maioria dos compradores firmou acordos de compra de longo prazo, essencialmente pré-encomendando com cinco anos de antecedência memória que ainda nem foi fabricada. E 2028 não parece muito melhor. As próprias empresas ainda não confirmaram nada disso oficialmente.
Sofia Almeida: Esse nome, RAMageddon, é bem apropriado, porque o efeito já está no preço das prateleiras. A IGN cita o SSD Western Digital SN7100 de 1 terabyte, um drive PCIe 4 comum, que foi de cerca de 110 dólares em janeiro para 189 dólares — um aumento de 52 por cento. O Xbox Series X subiu de preço neste mês, e o Steam Machine saiu, há um mês, mais caro do que a Valve queria, justamente por causa do custo da memória.
Rafael Costa: A autora do texto brincou que só quer que a bolha da IA estoure para conseguir comprar um kit de RAM decente por menos de 500 dólares. E na discussão, alguém perguntou se isso não seria scalping ilegal. A resposta foi que scalping costuma se aplicar a ingressos, e que essas empresas supostamente pretendem usar a memória, não revender. Mas o elefante na sala continua lá: se a bolha das empresas de IA estourar, esses acordos gigantes podem desmoronar.
Sofia Almeida: Por outro lado, a demanda por NAND — a memória de armazenamento — também cresce, mas a capacidade ainda não foi totalmente absorvida, porque há mais fornecedores nesse segmento. Então a pressão maior mesmo parece estar na memória usada em chips de IA.
Rafael Costa: Ou seja: para quem está olhando upgrade de máquina, a janela de preço baixo ficou para trás, e a expectativa é de que memória continue cara pelo menos até o fim de 2027, salvo mudança nesse quadro de acordos.
Sofia Almeida: Fecha o bloco com segurança de dados: a Framework divulgou uma violação de dados que aconteceu via Metabase, o provedor de banco de dados de business intelligence que ela usa. O atacante acessou nomes, e-mails, telefones e endereços de clientes.
Rafael Costa: Pela linha do tempo que eles divulgaram: no início de agosto, o Metabase descobriu um ataque ao Metabase Cloud usando uma vulnerabilidade desconhecida, um chamado zero-day, nas versões 1.58 ou superiores. Eles bloquearam os endpoints, corrigiram a falha, avisaram a polícia e contrataram uma empresa forense terceirizada. A Framework foi notificada em seis de agosto.
Sofia Almeida: E esse é o ponto que vale destacar: a Framework confirmou que a instância foi acessada, e os dados expostos incluem nome completo, e-mail, IPs de login, endereço de cobrança e entrega, país, cidade, estado, CEP, telefone e empresa. Para clientes do plano Framework for Business, ainda há investigação sobre possível acesso adicional a empresa, telefone e dados de faturamento como VAT e EIN. Não houve acesso a dados de pedidos ou pagamento.
Rafael Costa: O Metabase recomendou, em caráter preliminar, rotacionar credenciais, revisar contas de administrador e obter um relatório na loja deles. A Framework respondeu rotacionando suas próprias credenciais, não encontrou mudanças no acesso administrativo e está reduzindo os dados que compartilha com plataformas de BI apenas às colunas necessárias. O CEO do Metabase, Sameer Al-Sakran, assinou esse alerta.
Sofia Almeida: A reação da comunidade foi elogiar como a Framework conduziu o caso — transparência e comunicação clara — mas com uma ressalva importante: é mais uma violação acontecendo via plataforma de analytics, sejam ferramentas de CRM ou de análise como Salesforce e Mixpanel. Ou seja, o banco de dados principal fica seguro, e o vazamento acaba vindo do elo de inteligência de negócio.
Rafael Costa: Então fica a lição para quem usa essas ferramentas: quando um provedor de analítica é comprometido, o que vaza é exatamente o que alimenta o marketing e o atendimento. Vale revisar que colunas estão realmente indo para essas plataformas, porque cada dado a mais ali é uma superfície a mais para exposição — exatamente a postura que a Framework agora está adotando.
Sofia Almeida: Vamos começar por uma questão que talvez não seja resolvida por nenhuma atualização de software: o ensaio saiu na Noema Magazine, assinado por Aaron Horwath, que dirige operações de IA numa empresa de tecnologia criativa. Ele descreve uma angústia existencial a crescer entre trabalhadores do conhecimento — a sensação de que o trabalho intelectual é, e talvez sempre tenha sido, inútil.
Rafael Costa: E há uma cena que resume isso perfeitamente. No comboio, um jovem profissional falava monotonamente sobre EBITDA, margens e ARR. Quando saiu, tirou da mala duas agulhas de tricô e um novelo de lã rosa — estava a fazer um gorro de inverno para uma sobrinha. Um projeto que nasceu, segundo ele, do simples desejo de "fazer alguma coisa".
Sofia Almeida: É esse o coração da crise. O ensaio nota que profissionais começam a falar em "desaparecer", em "viver numa quinta" ou "sair da rede". Não é uma crise económica — é existencial. O que acontece a uma sociedade quando uma classe inteira de trabalhadores perde a fé nas suas próprias carreiras?
Rafael Costa: A conversa no Hacker News pegou nessa pergunta e levou-a para o campo prático. Um comentador propôs que os trabalhadores de tecnologia precisam de se tornar donos de negócios. Mas outro respondeu com ironia: preferia que os deixassem de fora da viagem futurista da IA — só que a tecnologia está a ser forçada em toda a gente, e o chamado trabalho "agéntico" vai ser a norma em cinco anos, gostem vocês ou não.
Sofia Almeida: E aí surgiu a dúvida óbvia: ser dono de um negócio torna alguém imune à IA roubar-lhe o emprego? Um comentador contra-argumentou que não há espaço para toda a gente — que o mercado livre é inerentemente oligopolista na maioria dos casos. Outro discordou, e o debate seguiu por aí.
Sofia Almeida: Deixamos a angústia existencial e passamos a uma ameaça mais concreta — desta vez às infraestruturas de água nos Estados Unidos. O The Register ouviu na DEF CON o general aposentado Paul Nakasone, antigo chefe da NSA, e ele não tem dúvidas sobre quem está por trás dos ataques.
Rafael Costa: Pelo menos doze estados americanos já tiveram sistemas de água invadidos — muito provavelmente pelo Irã. E a mensagem do Nakasone é clara: "temos que ter padrões mais altos. Esses PLCs não deveriam estar conectados à internet." Os PLCs são os controladores que monitoram dados de sensores, como os níveis de tanques, e podem ligar e desligar bombas.
Sofia Almeida: No final de julho, o FBI já tinha anunciado que investigava ataques contra esses dispositivos de tecnologia operacional, e grupos ligados ao Irã miram-nos há anos. Na DEF CON, a vice-presidente sénior do Halcyon Ransomware Research Center disse que ficaria chocada se não fosse o Irã — para ela, é quase certo.
Rafael Costa: Nem o FBI nem a administração americana culparam oficialmente o Irã. Mas o Nakasone diz que o governo está a adotar uma abordagem medida à atribuição, e que vê um ator com histórico, capacidade e intenção de fazer isto — nas palavras dele, "estamos em conflito com o Irã".
Sofia Almeida: E ele destacou a dimensão do problema: existem cerca de cinquenta mil municípios de água nos Estados Unidos, e noventa por cento da água do país vem desses cinquenta mil. São instalações historicamente subfinanciadas, com pouco pessoal de TI e, em alguns casos, nem um único funcionário dedicado a cibersegurança. A defesa, para ele, passa por parcerias do tipo que se forjam em eventos como a própria DEF CON.
Sofia Almeida: Mudamos de assunto — das infraestruturas de água para a corrida aos benchmarks de IA. O site ARC Prize publicou resultados verificados de uma nova versão do modelo DeepSeek, a V4 Flash de 0731, em três variantes de raciocínio: máximo, alto e baixo.
Rafael Costa: No esforço máximo, o modelo marca 89 por cento no ARC-AGI-1 Semi-Privado, a dois cêntimos por tarefa. E 61,4 por cento no ARC-AGI-2 Semi-Privado, a quatro cêntimos por tarefa. No modo alto ficam os 87 e 56 por cento, e no modo baixo os 84 e 46. O ARC-AGI-3 não aparece listado.
Sofia Almeida: Na discussão no Hacker News, a primeira impressão foi positiva: um comentador disse que os resultados são comparáveis aos do modelo Luna da versão 5.6 do GPT, mas mais baratos. Só que outro utilizador alertou para um pormenor importante — o eixo do gráfico tem escala logarítmica. Olhando para os valores brutos, o DeepSeek custa um quarto do preço da Luna, ou seja, é muito mais barato do que a aparência visual sugere.
Rafael Costa: E claro que veio a pergunta inevitável: esse preço inclui treinamento sobre o uso? Outro comentador questionou se ainda seria mais barato que a Luna usando uma assinatura da OpenAI — o palpite dele é que não, embora admita que não fez as contas. Os outros responderam que, com uma assinatura, quase tudo fica mais barato, mas que alguns aplicativos exigem API.
Sofia Almeida: E houve quem propusesse comparar com algo como a assinatura do OpenCode Go, com quase a certeza de que o DeepSeek sai mais barato nesse cenário. Mas houve também quem contestasse essa conclusão, lembrando que não sabemos qual é a margem real por trás de tudo isto.
Sofia Almeida: Para terminar, uma decisão da Oracle que vai gerar conversa na comunidade Java. Segundo o The Register, a empresa baniu código gerado por IA das contribuições ao OpenJDK — o projeto de código aberto por trás do Java — citando riscos de segurança e de propriedade intelectual.
Rafael Costa: E o contraste é notável. O steward do projeto permite que os desenvolvedores usem grandes modelos de linguagem em privado, para depuração e revisão de código. Mas não podem enviar material gerado por IA para repositórios, pull requests ou qualquer outro canal do projeto. Entretanto, a própria Oracle — internamente — está em sentido contrário: Larry Ellison declarou recentemente que os modelos de IA agora escrevem o código da Oracle, e o co-CEO Mike Sicilia creditou as ferramentas de IA por permitir que equipas de engenharia mais pequenas entreguem mais rápido.
Sofia Almeida: Há também pressão financeira no pano de fundo: a Oracle está a investir setenta mil milhões de dólares este ano em expansão de datacentres, e a agência S&P rebaixou a nota da empresa para BBB-, um degrau acima do estatuto de lixo, precisamente por causa do retorno incerto desse investimento.
Rafael Costa: Na conversa do Hacker News, houve quem visse ironia — Java alimenta uma parte considerável do mundo real há duas décadas, na sua opinião, sem precisar de código "sloppy-pasta" de LLM, e esse código vai acabar a correr em JVMs criadas com dezenas de milhões de horas-homem. Outros contra-argumentaram que, quando se pede a um LLM para iniciar um projeto do zero, a maioria não escolhe Java, por isso a quantidade de código afetada pode ser menor do que se teme. E um comentador lembrou que seria mais justo dizer quase três décadas de história, do que duas.
Sofia Almeida: Então vamos começar pela história que andou a incendiar o Hacker News esta semana: um programador que gere um site com um milhão e meio de páginas decidiu escrever sobre a sua guerra de um ano contra os scrapers. O post original começa mesmo com um aviso de um "só um momento..." — daqueles ecrãs de verificação que o site mostra — e o próprio autor admite que a maior parte do tráfego que recebe são bots a recolher os seus dados.
Rafael Costa: E a parte mais divertida é que a malta nos comentários apanhou logo a ironia. Um utilizador, qbane, admitiu que o próprio site dele também recolhe dados raspando documentos públicos, e disse que percebe como soa mal: é um scraper a escrever um post a queixar-se de scrapers. E claro, isso deu origem a respostas brilhantes, tipo "quem raspa os raspadores?" e o resumo perfeito de outro comentador: "vive pelo scraper, morre pelo scraper".
Sofia Almeida: Mas houve quem separasse muito bem as águas. Vários comentaristas fizeram a distinção entre alguém que, de vez em quando, corre uma ferramenta de raspagem para tirar dados — e bots que re-raspam o mesmo site constantemente e a alta velocidade. Um comentador, aeturnum, usou a velha ideia de que a dose é que faz o veneno: o que chama a atenção não é haver scraping, é a proporção entre as raspagens e as visitas legítimas.
Rafael Costa: E o autor do post, nickgray, veio mesmo a público confirmar isso: ele não raspa milhares de vezes por dia. Normalmente, disse ele, só raspa algumas vezes por ano. Por isso não está de todo na mesma classe dos bots que está a bloquear. E ainda houve quem apontasse uma coisa curiosa — que o site dele é provavelmente um alvo tão grande para scrapers precisamente porque é uma coleção curada de informação recolhida de outras fontes.
Sofia Almeida: Havia também uma solução em cima da mesa: o bloqueio geográfico. Um comentador achou que pode funcionar, mas levantou a questão de quem está a viajar no estrangeiro e tinha de usar uma VPN para aceder ao site. E a previsão dele era pessimista — que a web vai acabar por virar um conjunto de jardins murados, com a maioria dos sites fora dos motores de busca, descobertos apenas por indicação de alguém real. E claro, apareceu a pergunta óbvia: "e quando é que alguém verdadeiramente humano..." — bem, isso fica para quem quiser completar.
Sofia Almeida: Mudando de assunto — dos scrapers para a energia. A BBC noticiou que os Estados Unidos fecharam um acordo de mil e duzentos milhões de dólares com a empresa alemã RWE, para a companhia abandonar os seus projetos de energia eólica offshore nos EUA. A RWE disse que, depois de consideração cuidadosa, ficou determinado que não há caminho a seguir para permitir estes projetos nos EUA num futuro previsível, e concordou em devolver as concessões ao largo da Califórnia, da Louisiana e do New York Bight.
Rafael Costa: Isto não é a empresa a receber dinheiro e a enfiá-lo no bolso. O valor vai ser reinvestido em projetos de gás convencional — incluindo novecentos milhões de dólares num terminal de exportação de GNL na Louisiana. No total, a empresa alemã planeia investir cerca de dezassete mil milhões de euros nos EUA nos próximos seis anos, para aumentar a sua capacidade de geração.
Sofia Almeida: E o secretário do Interior, Doug Burgum, não fez segredo do lado que celebra. Escreveu nas redes sociais que os americanos merecem um sistema energético construído com bom senso, e não dependente de subsídios caros, saudando o “investimento voluntário” da RWE. O artigo enquadra isto no esforço da administração Trump contra a eólica offshore — dias depois de voltar ao cargo, Trump disse que não iam fazer "a coisa do vento" e chamou às turbinas "mós de vento grandes e feias", perigosas para a vida selvagem.
Rafael Costa: E este caso não é isolado. Em março de 2026, o Departamento do Interior fez um acordo semelhante com a TotalEnergies, que redirecionou investimento para uma fábrica de GNL no Texas e para petróleo convencional a montante no Golfo do México. E no mês passado assinou um acordo parecido, de cento e vinte e nove mil milhões de dólares, com a Duke Energy, de Charlotte. Ou seja, o padrão é claro: pressionar as empresas a trocar a eólica offshore por gás e petróleo.
Rafael Costa: E ainda em Washington — o Departamento de Energia lançou a Iniciativa Genesis de Modelos Abertos, para promover modelos de IA de peso aberto feitos nos EUA. Mas os comentários no Hacker News não foram todos entusiásticos. Um utilizador queixou-se que não conseguiu encontrar detalhes sobre o tamanho do modelo, nem sobre os dados de treino.
Sofia Almeida: Outro comentador apontou algo importante: a página está a aceitar candidaturas de dados de treino até dia 14 de agosto. Isso indica que isto é, para já, um anúncio de intenção e um apelo à participação — não há um modelo pronto. E comparado com a estratégia de sugar todos os dados da internet para alimentar os grandes modelos de linguagem, isto parece quase antiquado. O mesmo comentador suspeita que a intenção seja mesmo treinar com mais cuidado.
Rafael Costa: A discussão virou-se depois para a falta de modelos abertos americanos. Um comentador afirmou que praticamente não há modelos abertos dos EUA desde que a série Llama foi abandonada, e que faz sentido um investigador universitário querer um modelo de pesos abertos, desenvolvido a longo prazo e que não levante preocupações em Washington. Outros nomes surgiram na conversa — Nemotron, Arcee, Inkling — mas um utilizador avaliou que, na prática, todos eles estão três a seis meses atrás dos modelos chineses, e que só a Nvidia e a Thinking Machines parecem ter a computação necessária para treinar modelos de grande dimensão.
Sofia Almeida: E claro, a malta da internet não perde uma oportunidade para piadas com nomes. Um utilizador notou que "gomi" é a palavra japonesa para "lixo" — embora o nome seja Genesis, não fui eu que escolhi. E outro relembrou que o Partido Liberal australiano propôs em 2017 a política National Energy Guarantee, que fracassou precisamente pela tendência de transformar nomes de políticas em siglas. Ainda assim, o facto de o Departamento de Energia estar a tentar criar um modelo aberto americano é um sinal do tempo em que vivemos.
Rafael Costa: E para terminar, uma daquelas histórias que fazem a cabeça andar à roda. Um estudo publicado na Science Advances, e destacado pela ScienceAlert, sugere que a vida na Terra pode ter surgido duas vezes. O título é contundente: "Only One Conclusion" — só uma conclusão. O estudo sustenta que as duas principais linhagens de vida, as bactérias e as arqueias, podem ter alcançado de forma independente o metabolismo que as tornou vivas.
Sofia Almeida: E quem está por trás desta tese é o biólogo William Martin, da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf. O argumento dele é que as enzimas que catalisam estas reações não são conservadas entre bactérias e arqueias — e que os dados deixam "apenas uma conclusão": as linhagens fizeram a transição para o estado de vida livre independentemente. Nas palavras dele: "uma origem do código genético, mas duas origens da vida".
Rafael Costa: O estudo analisou estruturas proteicas de enzimas metabólicas centrais nos genomas de bactérias e arqueias, usando um método e um algoritmo para as ordenar por complexidade. E o raciocínio é interessante: quase tudo sobre a origem do metabolismo é debatido, mas a rede de cerca de quatrocentas reações que converte hidrogénio, dióxido de carbono, amónia e outros compostos em aminoácidos e bases não pode ter surgido num instante. Ora, os investigadores acharam que o último ancestral comum — o LUCA — tinha enzimas para apenas cerca de metade dessas reações. A outra metade era catalisada por metais presentes no ambiente onde o LUCA surgiu. E provavelmente houve quatro fases, com a primeira a depender só dos metais do ambiente.
Sofia Almeida: E nos comentários, houve uma reação muito gira. Um utilizador disse que, se isto for verdade, o fator que representa o número de civilizações na equação de Drake "ficou muito maior". Mas outro comentador tratou de pôr as coisas em perspetiva: não se trata de dois eventos totalmente independentes de criação de vida. A vida inicial dependia de química pré-biótica que teria acontecido em ambos os casos — ou seja, as duas linhagens partem do mesmo berço comum. O que nos deixa com aquele pensamento maravilhoso: pode ter havido um só código genético, mas a vida chegou à mesma conclusão duas vezes, por caminhos próprios.
Sofia Almeida: Em 7 de agosto de 2026, a OpenAI publicou um documento chamado "Responding to the next frontier of critical cyber capabilities" — respondendo à próxima fronteira de capacidades cibernéticas críticas. E o título já diz muito, porque a empresa divulgou avaliações preliminares de segurança cibernética do Astra, um modelo que ainda nem foi lançado. As avaliações internas dos últimos dias mostraram avanços significativos em codificação agêntica e cibersegurança. E esses resultados, somados a análises de especialistas, levaram a OpenAI a concluir que ela não pode descartar que o Astra tenha capacidades cibernéticas críticas.
Rafael Costa: Isso é de acordo com o Prepared Framework dela, publicado em dezembro de 2023. E esse limiar crítico é bem específico. O modelo cruza a linha se ele conseguir identificar e explorar falhas de dia zero funcionais de todos os níveis de gravidade em muitos sistemas críticos reais e endurecidos, sem intervenção humana — ou se conceber e executar estratégias inéditas, de ponta a ponta, contra alvos endurecidos, dado apenas um objetivo de alto nível.
Sofia Almeida: Exato. E vale contextualizar: modelos anteriores, incluindo o GPT-5.6-Sol, foram avaliados no nível alto, não no crítico. Ou seja, esse é um degrau acima do que a própria empresa tinha visto antes. A OpenAI ainda afirmou que o Astra não esteve envolvido na exploração da Hugging Face. Mas as medidas anunciadas são sérias: controles de segurança mais rígidos para modelos de maior capacidade, com ambientes de teste isolados e acesso restrito a redes e ferramentas.
Rafael Costa: Além de proteção e criptografia reforçadas dos pesos do modelo, monitoramento e detecção adicionais e execução em sandbox. E ainda pausa das atividades internas com o Astra que ainda não atendam aos requisitos. Ou seja, a empresa está dizendo: esse modelo é capaz o suficiente para a gente não ignorar o risco, e a resposta é imediata — não esperar o lançamento para ajustar os controles.
Sofia Almeida: Saindo da OpenAI, a App Store rejeitou um app de astronomia por... acharem que era astrologia. O caso foi relatado por John Gruber no Daring Fireball, na coluna "App Store Rejection of the Week: Dark Hours". O app, do Terry Godier, é baseado no site de astronomia dele — que se descreve como astronomia "para pessoas normais". E ele não tem função de tarô nem horóscopos. Mesmo assim, foi rejeitado sob a justificativa de que era astrologia.
Rafael Costa: E o pior é que, mesmo depois de escalonar até o App Review Board, a Apple manteve a rejeição. A resposta foi textual: "entendemos que o app inclui um recurso de leitura de tarô ao vivo". Que não existe no app. O Gruber descreve o Dark Hours como exclusivo para iOS, com a interface Liquid Glass nativa, rolagem suave e tipografia e layout bonitos. E a conclusão dele é dura: a App Store não é um sistema que funcione, porque erros óbvios não são corrigidos.
Sofia Almeida: A discussão no Hacker News foi animada. O AlexandrB brincou que espera o app agora ser aprovado — porque conseguir um post viral no Reddit, no HN ou no Twitter é o que serve como atendimento ao cliente em 2026. Outro usuário achou a decisão insana, lembrando que o Co-Star, um app inteiramente de astrologia, já foi destaque de escolha dos editores da loja em algum momento.
Rafael Costa: E teve contraponto também. Um usuário lembrou que a Apple não é contra apps de astrologia — ela apenas parou de aceitar apps novos em algumas categorias porque já existem muitos. Outro perguntou se isso está documentado em algum lugar, e alguém respondeu que, se for verdade, é insano. E um fã da Apple admitiu que o caso reduz o entusiasmo dele — atrás da questão maior de quantos apps bons são rejeitados por gente que não tem alcance para brigar.
Sofia Almeida: E para fechar, um resultado de desempenho impressionante em bancos de dados. Um artigo no malisper.me apresenta o pgrust 0.2, uma versão focada em performance. Os números: dez vezes mais rápida que a versão anterior, trinta por cento mais rápida que o Postgres em benchmarks do tipo OLTP, e trezentas vezes mais rápida que o Postgres no Clickbench, o benchmark analítico do Clickhouse — chegando, inclusive, a ficar à frente do próprio Clickhouse nessa métrica.
Rafael Costa: O motor de consultas foi a maior mudança e responde sozinho por cerca de dez vezes desse ganho de trezentas vezes. E o autor dá um contexto importante: o Postgres nasceu nos anos oitenta, quando o gargalo era a leitura e escrita em disco. Hoje, muitos dados cabem na memória RAM, e o limite para análise de dados virou CPU e memória — sem contar que um SSD NVMe é centenas de vezes mais rápido que um disco rígido antigo.
Sofia Almeida: Um exemplo prático do artigo: somar os primeiros 500 milhões de números. O Postgres leva cerca de vinte segundos, com as queries paralelas desativadas, contra 358 milissegundos em código Rust equivalente — algo em torno de cinquenta e cinco vezes mais rápido. As maiores fontes de desperdício seriam o travamento de concorrência e a análise do formato de armazenamento do Postgres, que usa aquele modelo clássico de devolver uma linha por vez por chamada.
Rafael Costa: Mas o que dominou a discussão no Hacker News não foi performance — foi a licença. A AGPL. Um usuário achou a escolha estranha para um projeto que não é web, lembrando que o Postgres é permissivo no estilo MIT e que isso impulsionou a adoção dele — e disse que aguardaria um fork sob licença MIT. Outro considerou a AGPL um impeditivo, porque ela é banida na maioria dos ambientes corporativos, o que bloquearia a adoção ampla e o envio de recursos de volta para o núcleo do Postgres. O autor respondeu que, em bancos de dados, a AGPL, ou algo mais restritivo, virou o padrão — porque grandes corporações como Amazon e Google monetizam produtos de licença permissiva. Ele citou o Mongo, o Cockroach e o Materialize como exemplo de software de código disponível, mas com restrições. Ou seja: a performance existe, mas a linguagem de licenciamento pode definir se esse ganho chega aos ambientes corporativos.
Sofia Almeida: E foi isso, pessoal. De empregos nos EUA e violação de dados na Framework até o DeepSeek surpreendendo em testes de raciocínio e o acordo bilionário da RWE para energia, foi uma semana cheia no mundo da tecnologia. Ficamos por aqui.
Rafael Costa: E claro, sem esquecer do Oracle banindo código gerado por IA, do drama do app Dark Hours na App Store, e da pergunta que deixou a Noema no ar: por que todo mundo em tech anda tão triste? Até a próxima!